28 de maio de 2010
O telemarketing é um inferno. Era isso que passava na minha cabeça por volta das 18h30min de ontem. Presenciei uma tentativa de cancelamento de serviço via telefone e, mesmo não interagindo com a atendente, meu desejo era interferir e acabar com aquele suplício sem fim. O telefone e a internet rompem fronteiras, sim. O problema é que a insistência desenfreada é uma chatice sem fim.
O motivo da ligação era o cancelamento do provedor de internet. A simpática moça do telemarketing insistia como criança teimosa em supermercado. Queria porque queria e pronto. Após quatro negativas veementes, ela pinçava sabe-se lá de onde outro argumento. Era voraz. Está certo que é bom ser persistente na vida, mas ontem cheguei à conclusão que persistir acima do limite irrita demais.
Dizem os conselheiros que é preciso saber dizer ‘não’ para subir na vida. Para aquela moça do telemarketing, porém, o ‘não’ é palavra inexistente no dicionário. Ela não aceitava de forma alguma. Fico imaginando a reação do namorado ou marido quando a mulher pergunta algo. Deve ser um pânico total.
- Amor, a mamãe vai morar aqui conosco e trará todos os bichinhos dela. Você concorda, não é?
Já pensou se ele responde não? Meu Deus. Se uma mulher contrariada já vira um leão, imagina uma atendente de telemarketing. Elas estão preparadas para ouvir e reagir ao não. Teimar com elas é loucura. A esperança é que elas saibam lidar com esse comportamento único apenas via telefone. Afinal, se mantiverem essa insistência olho no olho, o trauma é irreversível.
Brincadeiras à parte, as moças do telemarketing são treinadas e fazem o trabalho delas. São obrigadas a serem insistentes, a convencerem clientes mostrando todas as vantagens do produto. Por isso, devem ser tratadas com paciência. Também é preciso dizer que há muitos homens fazendo telemarketing. Aí a lógica se inverte e ai da mulher que teimar com o vivente. São especialistas na arte do ‘não’.
O fundamental, porém, é que os atendentes de telemarketing percebam que para tudo há um limite. Hoje, o estresse é tanto com este tema que mesmo os mais simples e objetivos profissionais acabam rotulados como os “chatos do telefone”. Se o cliente diz não, talvez aquela negativa possa virar um sim. Mas após quatro negações, é impossível. Pedro negou Cristo três vezes e Jesus sabia que não haveria uma quarta vez.
Aliás, é engraçado como o tempo para assinar um serviço é rapidíssimo e exatamente o contrário de quando a intenção é romper o contrato. Dizem alguns que parece casamento: fácil no começo, difícil no fim. As mil maravilhas do início se transformam em filme de terror na hora do adeus. Uma luta estressante, mas necessária.
Há várias pessoas que despistam o telemarketing. Pedem cinco minutinhos para estacionar o carro e nunca mais atendem. Outros atendem e, ao ouvirem o próprio nome, mudam de identidade, fingindo ser amigo ou parente de si mesmo e informando algo como “eu saí e só volto depois”. As técnicas são muitas e, claro, surgiram porque não há paciência no mundo que faça hoje uma pessoa passar a vida toda sem um incômodo com o telemarketing.
Apesar das centenas de pesares, não vale a pena desprezar o sistema. Afinal, há situações, mesmo que raras, em que a proposta oferecida é vantajosa. Além disso, apesar de insistentes, as atendentes são educadas. Falam polidamente e sempre com respeito, mesmo ouvindo calúnias e reações raivosas do outro lado da linha. No aspecto gentleman são exemplos de civilidade.
Mesmo assim, a verdade é que hoje somos reféns do telemarketing e precisamos estar acostumados a receber ligações. Ouvir não custa nada e a recompensa pode ser boa. Se for interessante, um só sim basta. Caso contrário, prepare-se para dizer uma série de nãos. Faça sua escolha e lembre-se da ex-primeira-ministra inglesa, Margaret Thatcher. Em uma frase sobre si, ela resumiu com perfeição este espírito persistente do telemarketing: “eu sou extraordinariamente paciente, desde que consiga o que quero”.
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