Há menos de uma semana, eu retornava do trabalho quando me deparei com um homem deitado na calçada. Ele estava do outro lado da rua, em frente ao prédio onde moro. Usava calça de abrigo marrom, chinelo de dedos, camiseta branca e um casaco preto. Na cabeça, boné branco com a aba torta. Sobre o corpo, um cobertor fino. Eram 20h20min.
Ele estava imóvel e parecia dormir. Timidamente, virava de um lado para outro. A mão quase cobria o rosto já demarcado pela barba grossa. Perto dele, uma pequena mochila. Lá dentro, talvez, estivesse sua própria vida, a razão da existência e o motivo que o levava a estar ali, ao relento, enquanto a noite caía e o vento assoviava de leve. Já eram 02h30min.
As pessoas passavam timidamente pelo corpo estendido no chão. Procuravam respostas, mas só lhe brotavam dúvidas ao ver de tão perto tal cena. O desvio era desconfiado e o olhar, discreto. Ninguém estendia a mão. Por que tal homem ali estaria? O que cometera para ter abandonado a si mesmo à beira da parede de tijolos? Eram 11h30min.
Dois dias antes, fui ao cinema para ver o filme “Rede Social”, que conta a história de genialidade e imaturidade que resultou na criação do Facebook, um dos maiores fenômenos da comunicação mundial. Um drama repleto de altos e baixos que provou o quanto uma boa ideia pode transformar vidas para sempre. Eram 22h30min.
E dizer que o criador Mark Zuckerberg também usava uma calça surrada, chinelos, uma camiseta simples e um moletom com capuz. Quem daria a ele uma oportunidade não fosse sua própria vocação de enfrentar uma realidade que o excluía? Quem o estenderia a mão enquanto ele ainda estava jogado na calçada do anonimato? Sem amigos, o estranho idealizador hoje contabiliza 500 milhões de usuários na plataforma que criou.
Em um mundo cada vez mais virtual, a realidade é esquecida até mesmo do outro lado da rua. A internet aproxima o mundo e, ao mesmo tempo, distancia de uma realidade que salta aos olhos. Qual é a verdadeira rede social? Hoje, basta um clique para curtir um comentário e apenas um pingo de consciência para mudar uma vida. A diferença está nas barreiras que separam dois mundos em um só.
Quando voltei do trabalho no dia seguinte, o homem já não estava mais na calçada. De repente um amigo o adicionou à vida real. Ou talvez tenha levantado, juntado o cobertor fino e a mochila saliente e partido rumo ao desconhecido. Talvez ele até tenha uma boa idéia, mas falta a oportunidade e o principal: alguém para ouvi-lo.
Há um abismo entre um olhar, um clique e uma atitude, mas nada faz sentido se não tivermos alguém para compartilhar. Um amigo que seja. Certa vez, Zuckerberg disse que sua missão era dar às pessoas o poder de tornar o mundo mais conectado. Se na esfera virtual isso é tão real, por que na realidade é tão virtual? Diz o ditado que um homem se conhece pelo calçado que usa. Mas, definitivamente, jamais será pelos chinelos.
Histórias, relatos, observações e pormenores. É nas entrelinhas do cotidiano que a vida vira crônica e estimula reflexões e atitudes.
24 de jan. de 2011
17 de jan. de 2011
O alento da tragédia nos pedais da bicicleta
Eu tinha 12 anos. Estava exatamente na metade da minha vida. Andar de bicicleta era uma brincadeira travestida de desafio que fascinava. Uma sensação de liberdade e domínio que contrastava com um risco inconsciente. No bairro, andar de bicicleta era tão comum para a criançada quanto caminhar, porém, em uma tarde de sábado o perigo apareceu.
Lá ia eu, com a possante Monark azul-marinho. Nos pneus, as finas garras pretas mostravam a robustez de uma freada potente e capaz de parar ao mínimo dobrar dos dedos no guidão. Subia pela rua, desviava das árvores, pulava a valeta e desafiava as britas. Até que uma descida pelo meio da pracinha da frente de casa me fez voltar à fragilidade escondida no ciclista inexperiente.
Dois amigos esperavam perto de uma árvore. Eu desci rápido o caminho de terra e pedras. Aproximei-me com confiança pensando em chegar triunfalmente e estacionar ao lado da dupla. Próximo deles, freei e dei uma leve virada no guidão para a direita, prenunciando a parada. Foi quando a roda de trás lançou-se à frente e me fez perder o controle. Em cima, o pneu pulava. Embaixo, o joelho raspava.
Parei de lado, com a bicicleta sobre a perna direita. Na canela e no joelho, marcas do acidente. Sinais de dor e aprendizado. O raspão foi grande, o sangue escorreu e a lembrança permanece viva até hoje. Pois olhando a TV nestes dias de tragédia, dei-me conta que as casas, estradas e árvores escorregaram no solo carioca tal qual eu naquela tarde de sábado.
É triste ver o desespero de quem está sem água potável, não tem comida e muito menos uma casa para morar. Sobrou apenas a roupa do corpo e, para muitos, até a vida lhes foi tirada. Enquanto o estômago ronca e a dignidade some, só resta buscar em listas fixadas nas paredes ou em fotos macabras o que sobrou dos parentes e amigos desaparecidos. Que lástima! Não restou nem um sorriso na região serrana do Rio de Janeiro.
Ante a tragédia, só resta reagir. Sair do percalço, salvar o que sobrou e recomeçar. Mas a lição aprendida a duras penas não pode ser perdida. A falta de planejamento na construção e o desafio à natureza em meio a morros e ao redor de rios, combinada à omissão do poder público na fiscalização dos locais, são uma enxurrada de perigo que poderia ser evitada.
Há 30 anos, desgraças parecidas já atormentavam os cariocas. De lá para cá, o que foi feito? Nada. Até agora, vieram milhares de doações. Faltam, ainda, as soluções. Em Nova York, por exemplo, moradores foram alertados por e-mail e até correio a deixarem suas casas antes de um perigoso temporal. Ainda precisamos aprender a prevenir ao invés de somente amenizar. Agir antes da dor é ser responsável com o próprio futuro.
Então, que as lágrimas que hoje lamentam as perdas nos faça esfregar os olhos para ver melhor a causa de tanto sofrimento. Assim como eu desci aquele barranco de terra e pedras com a Monark azul-marinho, o Rio de Janeiro viveu a mesma sensação de liberdade e domínio diante do risco inconsciente. Cabe, agora, também aprender a lição: saber a hora de parar e manter-se firme na terra para não escorrer mais sangue.
Lá ia eu, com a possante Monark azul-marinho. Nos pneus, as finas garras pretas mostravam a robustez de uma freada potente e capaz de parar ao mínimo dobrar dos dedos no guidão. Subia pela rua, desviava das árvores, pulava a valeta e desafiava as britas. Até que uma descida pelo meio da pracinha da frente de casa me fez voltar à fragilidade escondida no ciclista inexperiente.
Dois amigos esperavam perto de uma árvore. Eu desci rápido o caminho de terra e pedras. Aproximei-me com confiança pensando em chegar triunfalmente e estacionar ao lado da dupla. Próximo deles, freei e dei uma leve virada no guidão para a direita, prenunciando a parada. Foi quando a roda de trás lançou-se à frente e me fez perder o controle. Em cima, o pneu pulava. Embaixo, o joelho raspava.
Parei de lado, com a bicicleta sobre a perna direita. Na canela e no joelho, marcas do acidente. Sinais de dor e aprendizado. O raspão foi grande, o sangue escorreu e a lembrança permanece viva até hoje. Pois olhando a TV nestes dias de tragédia, dei-me conta que as casas, estradas e árvores escorregaram no solo carioca tal qual eu naquela tarde de sábado.
É triste ver o desespero de quem está sem água potável, não tem comida e muito menos uma casa para morar. Sobrou apenas a roupa do corpo e, para muitos, até a vida lhes foi tirada. Enquanto o estômago ronca e a dignidade some, só resta buscar em listas fixadas nas paredes ou em fotos macabras o que sobrou dos parentes e amigos desaparecidos. Que lástima! Não restou nem um sorriso na região serrana do Rio de Janeiro.
Ante a tragédia, só resta reagir. Sair do percalço, salvar o que sobrou e recomeçar. Mas a lição aprendida a duras penas não pode ser perdida. A falta de planejamento na construção e o desafio à natureza em meio a morros e ao redor de rios, combinada à omissão do poder público na fiscalização dos locais, são uma enxurrada de perigo que poderia ser evitada.
Há 30 anos, desgraças parecidas já atormentavam os cariocas. De lá para cá, o que foi feito? Nada. Até agora, vieram milhares de doações. Faltam, ainda, as soluções. Em Nova York, por exemplo, moradores foram alertados por e-mail e até correio a deixarem suas casas antes de um perigoso temporal. Ainda precisamos aprender a prevenir ao invés de somente amenizar. Agir antes da dor é ser responsável com o próprio futuro.
Então, que as lágrimas que hoje lamentam as perdas nos faça esfregar os olhos para ver melhor a causa de tanto sofrimento. Assim como eu desci aquele barranco de terra e pedras com a Monark azul-marinho, o Rio de Janeiro viveu a mesma sensação de liberdade e domínio diante do risco inconsciente. Cabe, agora, também aprender a lição: saber a hora de parar e manter-se firme na terra para não escorrer mais sangue.
16 de jan. de 2011
De volta, cinco meses depois
A Entrelinhas está de volta. Mais um recomeço, desta vez no mundo dos blogs. Obrigado pela visita. Para recomeçar, vamos relembrar o último texto publicado, um "até breve" escrito em 17 de agosto de 2010.
Fim da linha, bola para frente
Há semanas eu não jogava bola com meus irmãos. O sol saiu no sábado à tarde e, como durante muitos dias de nossas vidas, lá fomos nós para os fundos de casa. Na grama, uma brincadeira para lembrança eterna. Fui para o gol, os guris para a linha e jogamos por duas horas. Já era quase noite quando um chute despretensioso passou por cima do travessão e conduziu a bola até a rua.
O muro não é tão alto. Por isso, é comum que a bola caia na rua. Mal ela rompe a barreira, o batedor apressa-se em buscá-la. Sempre foi assim. Passaram-se cinco minutos e nada do retorno. Fomos conferir e surpresa: a bola sumiu. Não estava em lugar algum, muito menos desceu para a rua de baixo. A única maneira de a bola desaparecer era alguém ficar a esperando no outro lado do muro, mas não havia vestígio nenhum.
Procuramos a bola por uns 30 minutos. Olha dali, remexe de lá e nada. Voltamos para casa de mãos vazias. Percebi nos olhos do meu irmão mais novo uma decepção e, confesso, também fiquei triste. Foi então que decidimos pensar juntos que as bolas passam e são substituídas, mas nunca os momentos de alegria, desafio, carinho e cumplicidade que proporcionam a cada lance e trajetória. A lembrança boa é eterna.
Na vida, muitas vezes é preciso passar a bola para frente. Nada é insubstituível, mas sempre será inesquecível, ainda mais quando falamos em momentos felizes. As oportunidades aparecem, os sonhos se concretizam e somos desafiados a aprender a difícil arte de dizer adeus. Despedidas sempre são árduas, porém, saudades não quer dizer que estamos longe, mas que uma dia estivemos juntos e valeu a pena.
Em 10 de agosto de 2009, abri as Entrelinhas falando sobre recomeço. Estava tudo iniciando mais uma vez. “Mudar ou não mudar, eis a questão. O tempo se encarrega de mostrar se a estrada escolhida é a certa ou não. Caso seja, é só seguir em frente e encontrar o destino. Caso contrário, serão poucos minutos até encontrar a rota para, mais uma vez, recomeçar”.
Aquele pênalti voou para longe do gol e a bola se perdeu no céu azul. Avançou, seguiu em frente rumo a outros campos, pés, mãos e redes, mas não terminou. O carinho que recebeu e deixou estarão sempre marcados no couro da vida e costurados no coração com a linha da felicidade e gratidão. O mais importante, porém, é saber que, ao fim do dia, podemos voltar para casa abraçados e felizes para relembrar como tudo começou.
Fim da linha, bola para frente
Há semanas eu não jogava bola com meus irmãos. O sol saiu no sábado à tarde e, como durante muitos dias de nossas vidas, lá fomos nós para os fundos de casa. Na grama, uma brincadeira para lembrança eterna. Fui para o gol, os guris para a linha e jogamos por duas horas. Já era quase noite quando um chute despretensioso passou por cima do travessão e conduziu a bola até a rua.
O muro não é tão alto. Por isso, é comum que a bola caia na rua. Mal ela rompe a barreira, o batedor apressa-se em buscá-la. Sempre foi assim. Passaram-se cinco minutos e nada do retorno. Fomos conferir e surpresa: a bola sumiu. Não estava em lugar algum, muito menos desceu para a rua de baixo. A única maneira de a bola desaparecer era alguém ficar a esperando no outro lado do muro, mas não havia vestígio nenhum.
Procuramos a bola por uns 30 minutos. Olha dali, remexe de lá e nada. Voltamos para casa de mãos vazias. Percebi nos olhos do meu irmão mais novo uma decepção e, confesso, também fiquei triste. Foi então que decidimos pensar juntos que as bolas passam e são substituídas, mas nunca os momentos de alegria, desafio, carinho e cumplicidade que proporcionam a cada lance e trajetória. A lembrança boa é eterna.
Na vida, muitas vezes é preciso passar a bola para frente. Nada é insubstituível, mas sempre será inesquecível, ainda mais quando falamos em momentos felizes. As oportunidades aparecem, os sonhos se concretizam e somos desafiados a aprender a difícil arte de dizer adeus. Despedidas sempre são árduas, porém, saudades não quer dizer que estamos longe, mas que uma dia estivemos juntos e valeu a pena.
Em 10 de agosto de 2009, abri as Entrelinhas falando sobre recomeço. Estava tudo iniciando mais uma vez. “Mudar ou não mudar, eis a questão. O tempo se encarrega de mostrar se a estrada escolhida é a certa ou não. Caso seja, é só seguir em frente e encontrar o destino. Caso contrário, serão poucos minutos até encontrar a rota para, mais uma vez, recomeçar”.
Aquele pênalti voou para longe do gol e a bola se perdeu no céu azul. Avançou, seguiu em frente rumo a outros campos, pés, mãos e redes, mas não terminou. O carinho que recebeu e deixou estarão sempre marcados no couro da vida e costurados no coração com a linha da felicidade e gratidão. O mais importante, porém, é saber que, ao fim do dia, podemos voltar para casa abraçados e felizes para relembrar como tudo começou.
A mágica do cinema
O sábado estava frio, mas não interessava. O cinema me chamava e eu resolvi atender ao pedido. Chegando lá, uma surpresa: faltavam dez minutos para começar a sessão e uma cena me fez pensar o quanto o cinema fascina. Não era na telona, mas logo ali, a duas poltronas a minha direita.
Eles a recém haviam chegado. Uma criança de no máximo nove anos de idade. Camiseta branca, jaqueta de moleton com listras, calça de abrigo e tênis branco. Nas costas, uma mochila laranja, com uma alça em cada ombro. Ao seu lado, uma senhora com mais de 70 anos. Caminhava devagar e, no fundo dos óculos, revelava anos de uma vida difícil.
Ao sentarem-se, o garoto resolveu abrir a mochila. De lá, tirou um cobertor fino nas cores branca e marrom. Entregou à avó, que repousou o objeto no colo. De dentro da mochila também foi retirado um aparelho de celular. Prontamente, o menino configurou a opção para fotografia e virou-se para a tela.
As luzes internas e amareladas ainda estavam acesas. Na tela, apenas o branco da parede e as sombras do tom meia-luz. A música ambiente tocava como uma sinfonia dos velhos tempos. O jovem levantou e, rapidamente, começou a fotografar a telona e mostrar para a avó. As pernas balançavam na cadeira e o sorriso tomava conta dos lábios.
Foram três ou quatro fotos, mas para mim bastou. Carazinho é um dos raros locais que possui um cinema de rua. Uma realidade que existe graças à perseverança de um homem que carrega o amor pelos filmes no sangue e por um trio de abnegados que aprenderam a viver entre o brilho do sucesso e o escurinho da sala de projeções.
Os anos se passaram. O cinema que encantou uma geração e cresceu na cidade, hoje sobrevive quase inexplicavelmente sem lucro. A cultura, o charme, o diferente, a surpresa do filme inédito, tudo se perdeu em Carazinho. Restou apenas um sonho movido à paixão. O tempo passou, porém, esqueceu de trazer consigo um passado que encantou tanta gente.
A cena daquele garotinho fascinado com a oportunidade de estar no cinema e, mais que isso, ansioso pelo que talvez fosse um dos grandes momentos de sua vida até então, merece uma reflexão. Na sua mente, uma expectativa. Ao seu lado, alguém que viveu o que hoje não passa de um sonho. Um encontro de gerações através do cinema.
Nada está perdido. Pelo contrário, o cinema ainda encanta e jamais será substituído pelos DVD’s, apesar do conforto de casa e da possibilidade de pausar o filme a qualquer momento. No cinema, assim como na vida e na projeção do filme, o tempo não para jamais. Vive-se o momento e, num momento, vive-se uma vida.
Naquela noite, estava em cartaz "Harry Potter: o enigma do príncipe". A história de um bruxinho, seus feitiços, magias e aventuras. Mistérios de uma ficção que bem podia ser realidade. O menino guardou o celular e esticou o cobertor. Olhou para a avó e sorriu. A luz se apagou e, antes de o filme começar eu já sabia: a mágica já havia acontecido.
Eles a recém haviam chegado. Uma criança de no máximo nove anos de idade. Camiseta branca, jaqueta de moleton com listras, calça de abrigo e tênis branco. Nas costas, uma mochila laranja, com uma alça em cada ombro. Ao seu lado, uma senhora com mais de 70 anos. Caminhava devagar e, no fundo dos óculos, revelava anos de uma vida difícil.
Ao sentarem-se, o garoto resolveu abrir a mochila. De lá, tirou um cobertor fino nas cores branca e marrom. Entregou à avó, que repousou o objeto no colo. De dentro da mochila também foi retirado um aparelho de celular. Prontamente, o menino configurou a opção para fotografia e virou-se para a tela.
As luzes internas e amareladas ainda estavam acesas. Na tela, apenas o branco da parede e as sombras do tom meia-luz. A música ambiente tocava como uma sinfonia dos velhos tempos. O jovem levantou e, rapidamente, começou a fotografar a telona e mostrar para a avó. As pernas balançavam na cadeira e o sorriso tomava conta dos lábios.
Foram três ou quatro fotos, mas para mim bastou. Carazinho é um dos raros locais que possui um cinema de rua. Uma realidade que existe graças à perseverança de um homem que carrega o amor pelos filmes no sangue e por um trio de abnegados que aprenderam a viver entre o brilho do sucesso e o escurinho da sala de projeções.
Os anos se passaram. O cinema que encantou uma geração e cresceu na cidade, hoje sobrevive quase inexplicavelmente sem lucro. A cultura, o charme, o diferente, a surpresa do filme inédito, tudo se perdeu em Carazinho. Restou apenas um sonho movido à paixão. O tempo passou, porém, esqueceu de trazer consigo um passado que encantou tanta gente.
A cena daquele garotinho fascinado com a oportunidade de estar no cinema e, mais que isso, ansioso pelo que talvez fosse um dos grandes momentos de sua vida até então, merece uma reflexão. Na sua mente, uma expectativa. Ao seu lado, alguém que viveu o que hoje não passa de um sonho. Um encontro de gerações através do cinema.
Nada está perdido. Pelo contrário, o cinema ainda encanta e jamais será substituído pelos DVD’s, apesar do conforto de casa e da possibilidade de pausar o filme a qualquer momento. No cinema, assim como na vida e na projeção do filme, o tempo não para jamais. Vive-se o momento e, num momento, vive-se uma vida.
Naquela noite, estava em cartaz "Harry Potter: o enigma do príncipe". A história de um bruxinho, seus feitiços, magias e aventuras. Mistérios de uma ficção que bem podia ser realidade. O menino guardou o celular e esticou o cobertor. Olhou para a avó e sorriu. A luz se apagou e, antes de o filme começar eu já sabia: a mágica já havia acontecido.
Dez mandamentos para os amigos secretos de fim de ano
17 de novembro de 2009
Quem já participou, imprima ou anote. Quem ainda não, leia e confira. O fim do ano está chegando e nada como estar preparado para o tradicional amigo secreto. Em casa ou na empresa, a brincadeira tem regras universais e dispara na frente na lista das opções mais escolhidas na hora de uma confraternização natalina ou de ano-novo.
Com raras exceções, todos já participaram de um amigo secreto e, claro, tem boas histórias para contar. Afinal, na brincadeira se revela mais que um nome no papel, mas sim três atos que definem a personalidade de cada um: pensar, escolher e agir.
Tomei a liberdade de listar os dez mandamentos do amigo secreto. Sim, eles existem. Duvida? Então veja se não passou por alguma dessas pelo menos uma vez. A vida, por incrível que se pareça, se repete em cada um de nós.
1º - Na hora de combinar o valor do presente, quanto mais dinheiro ou posses a pessoa tiver, mais ela vai chorar para reduzir o preço final.
2º - Se você escolher o próprio nome na hora de retirar o papel com o seu amigo secreto, se prepare: a segunda retirada de papel sempre será a da pessoa que você menos gosta no ambiente familiar ou do trabalho.
3º - O segredo do nome de quem pegou você ou de quem você pegou é diretamente proporcional à idade que você tem menos 90%. O que restar, é medido em dias.
4º - Sempre tem um chato no amigo secreto. Ele quer saber quem pegou quem antes da revelação. A estes, não há saída e, sim, uma regra: se ele perguntar três vezes o nome do amigo secreto a qualquer um dos participantes, automaticamente será eliminado.
5º - Chocolate se dá na Páscoa. Logo, nada de caixa de bombom ou algo do gênero. O presente de amigo secreto tem que poder ficar guardado, exposto na estante ou usado no corpo por pelo menos um ano.
6º - Você nunca vai ganhar um presente melhor do que o que você deu ao seu amigo secreto. Logo, compre um presente bom e faça por merecer.
7º - Se você esquecer o presente, seja de propósito ou não, automaticamente terá que dar o presente que ganhar ao seu amigo secreto. Ah, e pode apostar: será um ato que vai lhe doer muito e, talvez, quase matar de arrependimento.
8º - Em todos os casos e tipos: quanto mais enfeitada a embalagem, pior é o presente.
9º - Na hora de revelar o amigo secreto, quanto mais elogios a pessoa faz ao seu amigo secreto, mais ela o detesta ou o inveja. Com raras exceções, é claro. Raras, eu disse.
10º - Por mais que você jure que nunca mais vai participar de um amigo secreto, lembre-se: cedo ou tarde ele aparecerá em sua vida novamente.
Quem já participou, imprima ou anote. Quem ainda não, leia e confira. O fim do ano está chegando e nada como estar preparado para o tradicional amigo secreto. Em casa ou na empresa, a brincadeira tem regras universais e dispara na frente na lista das opções mais escolhidas na hora de uma confraternização natalina ou de ano-novo.
Com raras exceções, todos já participaram de um amigo secreto e, claro, tem boas histórias para contar. Afinal, na brincadeira se revela mais que um nome no papel, mas sim três atos que definem a personalidade de cada um: pensar, escolher e agir.
Tomei a liberdade de listar os dez mandamentos do amigo secreto. Sim, eles existem. Duvida? Então veja se não passou por alguma dessas pelo menos uma vez. A vida, por incrível que se pareça, se repete em cada um de nós.
1º - Na hora de combinar o valor do presente, quanto mais dinheiro ou posses a pessoa tiver, mais ela vai chorar para reduzir o preço final.
2º - Se você escolher o próprio nome na hora de retirar o papel com o seu amigo secreto, se prepare: a segunda retirada de papel sempre será a da pessoa que você menos gosta no ambiente familiar ou do trabalho.
3º - O segredo do nome de quem pegou você ou de quem você pegou é diretamente proporcional à idade que você tem menos 90%. O que restar, é medido em dias.
4º - Sempre tem um chato no amigo secreto. Ele quer saber quem pegou quem antes da revelação. A estes, não há saída e, sim, uma regra: se ele perguntar três vezes o nome do amigo secreto a qualquer um dos participantes, automaticamente será eliminado.
5º - Chocolate se dá na Páscoa. Logo, nada de caixa de bombom ou algo do gênero. O presente de amigo secreto tem que poder ficar guardado, exposto na estante ou usado no corpo por pelo menos um ano.
6º - Você nunca vai ganhar um presente melhor do que o que você deu ao seu amigo secreto. Logo, compre um presente bom e faça por merecer.
7º - Se você esquecer o presente, seja de propósito ou não, automaticamente terá que dar o presente que ganhar ao seu amigo secreto. Ah, e pode apostar: será um ato que vai lhe doer muito e, talvez, quase matar de arrependimento.
8º - Em todos os casos e tipos: quanto mais enfeitada a embalagem, pior é o presente.
9º - Na hora de revelar o amigo secreto, quanto mais elogios a pessoa faz ao seu amigo secreto, mais ela o detesta ou o inveja. Com raras exceções, é claro. Raras, eu disse.
10º - Por mais que você jure que nunca mais vai participar de um amigo secreto, lembre-se: cedo ou tarde ele aparecerá em sua vida novamente.
Será o "quase" pior que o "nada"?
23 de outuro de 2009
O salão estava cheio. Mais de 300 pessoas aguardavam o grande momento. O prêmio principal estava no centro do palco e, em cada mesa, a esperança de marcar para sempre aquela noite fria de primavera. Diz o ditado: "tem gente que tem sorte". O resultado, porém, revelou o quanto a sorte demais pode ser um verdadeiro azar.
O bingo começou em clima de descontração. A cada número anunciado, risadas de um lado e brincadeiras do outro. Aos poucos, as dezenas foram se apresentando e o silêncio foi ficando maior, fruto da angústia da espera. A cartela tinha apenas 15 números e o prêmio principal só sairia para quem a completasse e gritasse com entusiasmo a palavra que dá nome ao jogo.
O tempo foi passando e quando a bolinha de número 30 saiu do globo, Onofre teve a certeza que o prêmio seria dele. Assinalou com caneta azul a 14ª dezena e sorriu com o canto dos lábios. Faltava apenas uma marcação para levar o tão sonhado automóvel. Um sonho de criança que estava a um anúncio da mesa central.
Onofre sempre foi considerado pelos amigos um grande azarado quando o assunto era jogo. O fracasso o acompanhava desde os tempos de escola, quando a professora sorteava um pirulito entre os alunos. Ele cresceu e começou a perder em rifas e concursos simples. O auge veio na sequência de derrotas na Mega-Sena: 22 anos de tentativas em vão. No máximo, três dezenas acertadas no longínquo ano de 1994.
Agora, tudo parecia diferente. Estava chegando o momento de mudar tudo, tirar aquele azar desgraçado e sorrir ao receber o tão cobiçado prêmio. Faltava apenas um número. Nada poderia tirar a glória de suas mãos. Era como o último cobrador de pênalti na decisão da Copa do Mundo tendo pela frente o goleiro de joelhos e o gol praticamente aberto para a conquista inédita.
O globo girou, a bolinha foi presa na marca e retirada pelas mãos finas e delicadas de uma linda mulher loira de olhos azuis, cabelos lisos e unhas caprichosamente pintadas com esmalte verde. Ela repassou o pequeno objeto ao locutor. Na cartela, faltava apenas o número 23. A voz bradou em alto e bom tom:
- Viiiiinteeeeeee.......eeeeeee.....quatro!
As pernas tremeram, o coração bateu mais forte e o suor tomou conta do corpo. Faltou pouco, muito pouco. Veio a rodada seguinte. A cena se repetiu e a bolinha chegou ao apresentador, que sentenciou:
- Viiiiinteeeeeee.......eeeeeee.....um!
Uhhh! O grito foi como o da torcida apaixonada no estádio lotado quando o centroavante cabeceia no ângulo e o goleiro do time adversário defende em uma ponte espetacular, espalmando para escanteio. Sorte ou azar? A cartilha recomendava paciência e Onofre não hesitou. A possibilidade de vencer ainda era grande.
As bolinhas foram saindo e, para desespero e sofrimento dele, o número 23 não aparecia. Foram oito rodadas seguidas e nada. Na nona, o locutor mostrou otimismo, pegou o microfone e anunciou o número ao público. Então, enfim, ouviu-se a tão esperada resposta:
- Bingo!
A espera havia acabado. A angústia era coisa do passado. A tensão não existia mais. O coração batia forte. Onofre jogou-se para trás na cadeira, colocou as mãos no rosto e chorou como criança. O bingo não foi para ele. Lá no fundo do salão vinha um intrépido velhinho, no alto dos 70 anos, sorrindo e comemorando a glória recém alcançada.
O que será melhor: perder por vários números ou por um só? Ser derrotado de lambuja ou bater na trave oito vezes até ser derrotado? Muitos reclamam da falta de sorte, porém, tê-la parcialmente pode ser um verdadeiro azar. Quem marcou apenas um número na cartela provavelmente esquecerá aquele dia. Onofre não. Foi mais que uma derrota. Um verdadeiro sonho perdido.
A história é verídica, creia. O exemplo deste jogador nato é só uma amostra de o quanto o quase pode ser pior que o nada. Estar ali, tão perto, e não conseguir pode virar até trauma. Ainda mais quando tudo parece conspirar a favor. A única vantagem do quase é viver a sensação de que é possível até o fim. Algo como diz o rei Roberto Carlos: "o importante é que emoções eu vivi".
O quase é cruel demais para quem perde, mas extremamente gratificante para o vencedor. Afinal, quem ganha também vive o quase. O problema é quando sempre é quase. Quase campeão, quase milionário, quase promovido ou quase um sucesso. O quase é um submundo psicológico intocável, inexplicável e, para muitos, imutável.
Será tudo uma questão de sorte? Não. Afinal, vencer nunca é pura sorte, por mais incrível que pareça. Nada é por acaso e tudo acontece no momento mais certo para nos fazer bem. Se não aconteceu, só resta tentar compreender. Talvez a tão esperada hora chegue logo ou, quem sabe, nunca apareça. O essencial é nunca deixar de acreditar.
Onofre saiu do bingo arrasado. Achou que jamais voltaria à jogatina. Engano dele. Não sabia que, dentro de si, havia encontrado a chave do dilema que tanto o angustiava. Haveria de descobrir, sabe-se lá quando, a sentença final: a esperança, sim, derrota o quase. Sempre, definitivamente.
O salão estava cheio. Mais de 300 pessoas aguardavam o grande momento. O prêmio principal estava no centro do palco e, em cada mesa, a esperança de marcar para sempre aquela noite fria de primavera. Diz o ditado: "tem gente que tem sorte". O resultado, porém, revelou o quanto a sorte demais pode ser um verdadeiro azar.
O bingo começou em clima de descontração. A cada número anunciado, risadas de um lado e brincadeiras do outro. Aos poucos, as dezenas foram se apresentando e o silêncio foi ficando maior, fruto da angústia da espera. A cartela tinha apenas 15 números e o prêmio principal só sairia para quem a completasse e gritasse com entusiasmo a palavra que dá nome ao jogo.
O tempo foi passando e quando a bolinha de número 30 saiu do globo, Onofre teve a certeza que o prêmio seria dele. Assinalou com caneta azul a 14ª dezena e sorriu com o canto dos lábios. Faltava apenas uma marcação para levar o tão sonhado automóvel. Um sonho de criança que estava a um anúncio da mesa central.
Onofre sempre foi considerado pelos amigos um grande azarado quando o assunto era jogo. O fracasso o acompanhava desde os tempos de escola, quando a professora sorteava um pirulito entre os alunos. Ele cresceu e começou a perder em rifas e concursos simples. O auge veio na sequência de derrotas na Mega-Sena: 22 anos de tentativas em vão. No máximo, três dezenas acertadas no longínquo ano de 1994.
Agora, tudo parecia diferente. Estava chegando o momento de mudar tudo, tirar aquele azar desgraçado e sorrir ao receber o tão cobiçado prêmio. Faltava apenas um número. Nada poderia tirar a glória de suas mãos. Era como o último cobrador de pênalti na decisão da Copa do Mundo tendo pela frente o goleiro de joelhos e o gol praticamente aberto para a conquista inédita.
O globo girou, a bolinha foi presa na marca e retirada pelas mãos finas e delicadas de uma linda mulher loira de olhos azuis, cabelos lisos e unhas caprichosamente pintadas com esmalte verde. Ela repassou o pequeno objeto ao locutor. Na cartela, faltava apenas o número 23. A voz bradou em alto e bom tom:
- Viiiiinteeeeeee.......eeeeeee.....quatro!
As pernas tremeram, o coração bateu mais forte e o suor tomou conta do corpo. Faltou pouco, muito pouco. Veio a rodada seguinte. A cena se repetiu e a bolinha chegou ao apresentador, que sentenciou:
- Viiiiinteeeeeee.......eeeeeee.....um!
Uhhh! O grito foi como o da torcida apaixonada no estádio lotado quando o centroavante cabeceia no ângulo e o goleiro do time adversário defende em uma ponte espetacular, espalmando para escanteio. Sorte ou azar? A cartilha recomendava paciência e Onofre não hesitou. A possibilidade de vencer ainda era grande.
As bolinhas foram saindo e, para desespero e sofrimento dele, o número 23 não aparecia. Foram oito rodadas seguidas e nada. Na nona, o locutor mostrou otimismo, pegou o microfone e anunciou o número ao público. Então, enfim, ouviu-se a tão esperada resposta:
- Bingo!
A espera havia acabado. A angústia era coisa do passado. A tensão não existia mais. O coração batia forte. Onofre jogou-se para trás na cadeira, colocou as mãos no rosto e chorou como criança. O bingo não foi para ele. Lá no fundo do salão vinha um intrépido velhinho, no alto dos 70 anos, sorrindo e comemorando a glória recém alcançada.
O que será melhor: perder por vários números ou por um só? Ser derrotado de lambuja ou bater na trave oito vezes até ser derrotado? Muitos reclamam da falta de sorte, porém, tê-la parcialmente pode ser um verdadeiro azar. Quem marcou apenas um número na cartela provavelmente esquecerá aquele dia. Onofre não. Foi mais que uma derrota. Um verdadeiro sonho perdido.
A história é verídica, creia. O exemplo deste jogador nato é só uma amostra de o quanto o quase pode ser pior que o nada. Estar ali, tão perto, e não conseguir pode virar até trauma. Ainda mais quando tudo parece conspirar a favor. A única vantagem do quase é viver a sensação de que é possível até o fim. Algo como diz o rei Roberto Carlos: "o importante é que emoções eu vivi".
O quase é cruel demais para quem perde, mas extremamente gratificante para o vencedor. Afinal, quem ganha também vive o quase. O problema é quando sempre é quase. Quase campeão, quase milionário, quase promovido ou quase um sucesso. O quase é um submundo psicológico intocável, inexplicável e, para muitos, imutável.
Será tudo uma questão de sorte? Não. Afinal, vencer nunca é pura sorte, por mais incrível que pareça. Nada é por acaso e tudo acontece no momento mais certo para nos fazer bem. Se não aconteceu, só resta tentar compreender. Talvez a tão esperada hora chegue logo ou, quem sabe, nunca apareça. O essencial é nunca deixar de acreditar.
Onofre saiu do bingo arrasado. Achou que jamais voltaria à jogatina. Engano dele. Não sabia que, dentro de si, havia encontrado a chave do dilema que tanto o angustiava. Haveria de descobrir, sabe-se lá quando, a sentença final: a esperança, sim, derrota o quase. Sempre, definitivamente.
12 de jan. de 2011
Uma frase e um destino: formalidade ou segurança?
16 de agosto de 2010
Viajei a Passo Fundo na semana passada. No caminho, fui ultrapassado por um veículo identificado por uma empresa. Até aí, tudo normal. O problema é que estávamos em uma curva fechada e em local proibido para ultrapassagem. A ousadia perigosa não deu em nada, mas o que mais me impressionou foi ver na traseira do automóvel uma frase batida, mas sempre presente: como estou dirigindo?
O telefone estava logo abaixo. Não me dei o trabalho de anotar, muito menos tive interesse em ligar. Mesmo assim, fiquei pensando o que faria a empresa se soubesse que o funcionário pé na tábua quase havia provocado um acidente. Há muitos automóveis de empresas com essa frase, mas jamais conheci alguém que tivesse ligado para o tal número denunciar a imprudência do motorista. Infelizmente, o alerta é mera formalidade.
O problema é que a tal formalidade põe em risco a vida do funcionário e, mais que isso, de pessoas inocentes que não tem nada a ver com a barbeiragem ao volante. Não é à toa que o trânsito provoca tantas mortes. Até hoje não compreendo por que os motores são potentes para atingir quase 300 km/h se o limite é menos de um terço disso. Ter potência a mais para poder ultrapassar é louvável, mas é preciso tanto? Uma contradição inexplicável e perigosíssima.
Não é à toa que as empresas que dispõem de condições financeiras implantam monitoramento eletrônico da velocidade. Aí, quem passa do limite acaba dedurado pelo computador. A formalidade da frase “como estou dirigindo?” é um típico parecer ser, como diria Nicolau Maquiavel. O problema é que, nos perigosos caminhos do trânsito brasileiro, aparentar respeito pode ser fatal.
Talvez na próxima vez eu anote e ligue para o número telefônico do maluco que me ultrapassar de forma perigosa e tiver a frase emblemática na traseira do veículo. Já pensou a reação do chefe? Pior é se a pressa é por uma ordem do próprio mandatário. Nessas horas, vale a máxima do filósofo inglês Francis Bacon: “o respeito de si próprio é o principal freio de todos os vícios”.
Viajei a Passo Fundo na semana passada. No caminho, fui ultrapassado por um veículo identificado por uma empresa. Até aí, tudo normal. O problema é que estávamos em uma curva fechada e em local proibido para ultrapassagem. A ousadia perigosa não deu em nada, mas o que mais me impressionou foi ver na traseira do automóvel uma frase batida, mas sempre presente: como estou dirigindo?
O telefone estava logo abaixo. Não me dei o trabalho de anotar, muito menos tive interesse em ligar. Mesmo assim, fiquei pensando o que faria a empresa se soubesse que o funcionário pé na tábua quase havia provocado um acidente. Há muitos automóveis de empresas com essa frase, mas jamais conheci alguém que tivesse ligado para o tal número denunciar a imprudência do motorista. Infelizmente, o alerta é mera formalidade.
O problema é que a tal formalidade põe em risco a vida do funcionário e, mais que isso, de pessoas inocentes que não tem nada a ver com a barbeiragem ao volante. Não é à toa que o trânsito provoca tantas mortes. Até hoje não compreendo por que os motores são potentes para atingir quase 300 km/h se o limite é menos de um terço disso. Ter potência a mais para poder ultrapassar é louvável, mas é preciso tanto? Uma contradição inexplicável e perigosíssima.
Não é à toa que as empresas que dispõem de condições financeiras implantam monitoramento eletrônico da velocidade. Aí, quem passa do limite acaba dedurado pelo computador. A formalidade da frase “como estou dirigindo?” é um típico parecer ser, como diria Nicolau Maquiavel. O problema é que, nos perigosos caminhos do trânsito brasileiro, aparentar respeito pode ser fatal.
Talvez na próxima vez eu anote e ligue para o número telefônico do maluco que me ultrapassar de forma perigosa e tiver a frase emblemática na traseira do veículo. Já pensou a reação do chefe? Pior é se a pressa é por uma ordem do próprio mandatário. Nessas horas, vale a máxima do filósofo inglês Francis Bacon: “o respeito de si próprio é o principal freio de todos os vícios”.
Gérson queria dormir quando acordou para a vida
06 de agosto de 2010
O telefone tocava sempre nas horas mais impróprias na casa de Gérson. Era o bife cair na panela e já soava o sinal. Bastava entrar no chuveiro para tilintar a campainha. Deitava na cama quentinha com lençol térmico e lá vinha o chamado. Atendia contrariado, mas sempre calmo. Do outro lado da linha, pessoas diferentes e a mesma pergunta:
- É da rádio? Quero pedir uma música!
O número do telefone da casa de Gérson era apenas um dígito diferente da emissora mais ouvida da região. Era um drama. Até que em uma noite fria, no segundo domingo de agosto, ele prometeu à família que descontaria o stress de anos na próxima ligação. Instantes depois, o telefone tocou. Eram 23h15min. Após a tradicional pergunta, Gérson engrossou a voz e iniciou a vingança:
- É da rádio? Quero pedir uma música!
- Oi, querida! Qual você quer?
- Como é grande meu amor por você, do Roberto Carlos. É para meu pai! Nossa, consegui a ligação na última ficha aqui no orelhão!
- Pai?
- Sim, ele sempre ouve vocês. Manda um recado de Feliz Dia dos Pais para ele. Diga que o amo. Será uma surpresa inesquecível, pois não o vejo há dez anos e descobri que ele sempre ouve o programa.
O silêncio tomou conta do falso locutor. E agora? Era preciso decidir entre admitir a fraude e frustrar uma bela homenagem na última tentativa de ligação da garota ou desabafar o fardo dos últimos meses vingando-se de mais uma perturbação em hora imprópria. Um dilema. Dizem que coração de mãe sempre tem espaço para mais um. E no de um pai, qual é o limite?
Seja no carinho de um colo, na montagem de um carrinho de madeira, no joguinho de bola do fim tarde, no alerta ao sair para a festa ou até mesmo no ciúme do novo namorado, pai é sinônimo eterno de amor. Uns até brincam que pai é quem cria e estão mais que certos. Aliás, feliz daqueles que têm o privilégio de dizerem aos seus genitores quanto os amam e são gratos pela vida.
Infelizmente, muitos não têm o privilégio da presença paterna. Pior, porém, são os que a tem e não dão valor. A força que um pai dá ao acompanhar, ajudar e ensinar um filho é um presente que jamais será esquecido. Por mais dificuldades que enfrente, a sensação de um filho em saber que terá o velho e querido pai para afagá-lo é um combustível incalculável para superar barreiras e vencer na vida.
Vivemos de exemplos e somos o espelho mais fiel de nossos pais. A fruta não cai longe do pé, definitivamente. Agosto é o mês do simbólico Dia dos Pais, uma data para comemorar, presentear e, acima de tudo, refletir. Ser pai é uma responsabilidade muito maior que dar dinheiro ou ter o nome na certidão de nascimento. Você já deu um beijo em sua filha e disse que ela é especial? Já disse ao seu filho hoje quanto o ama? E ao seu pai?
A menina aguardava na linha a confirmação do locutor. A resposta foi objetiva:
- É claro que vamos tocar!
O telefone voltou ao gancho. Era tarde, mas nunca demais para dar um basta naquele absurdo. Tudo tem limites, ainda mais quanto se fala em pais e filhos. Minutos depois, o sorriso da missão cumprida. Naquela noite, no embalo de Roberto Carlos, a homenagem foi ao ar com um ouvinte a mais na escuta.
O telefone tocava sempre nas horas mais impróprias na casa de Gérson. Era o bife cair na panela e já soava o sinal. Bastava entrar no chuveiro para tilintar a campainha. Deitava na cama quentinha com lençol térmico e lá vinha o chamado. Atendia contrariado, mas sempre calmo. Do outro lado da linha, pessoas diferentes e a mesma pergunta:
- É da rádio? Quero pedir uma música!
O número do telefone da casa de Gérson era apenas um dígito diferente da emissora mais ouvida da região. Era um drama. Até que em uma noite fria, no segundo domingo de agosto, ele prometeu à família que descontaria o stress de anos na próxima ligação. Instantes depois, o telefone tocou. Eram 23h15min. Após a tradicional pergunta, Gérson engrossou a voz e iniciou a vingança:
- É da rádio? Quero pedir uma música!
- Oi, querida! Qual você quer?
- Como é grande meu amor por você, do Roberto Carlos. É para meu pai! Nossa, consegui a ligação na última ficha aqui no orelhão!
- Pai?
- Sim, ele sempre ouve vocês. Manda um recado de Feliz Dia dos Pais para ele. Diga que o amo. Será uma surpresa inesquecível, pois não o vejo há dez anos e descobri que ele sempre ouve o programa.
O silêncio tomou conta do falso locutor. E agora? Era preciso decidir entre admitir a fraude e frustrar uma bela homenagem na última tentativa de ligação da garota ou desabafar o fardo dos últimos meses vingando-se de mais uma perturbação em hora imprópria. Um dilema. Dizem que coração de mãe sempre tem espaço para mais um. E no de um pai, qual é o limite?
Seja no carinho de um colo, na montagem de um carrinho de madeira, no joguinho de bola do fim tarde, no alerta ao sair para a festa ou até mesmo no ciúme do novo namorado, pai é sinônimo eterno de amor. Uns até brincam que pai é quem cria e estão mais que certos. Aliás, feliz daqueles que têm o privilégio de dizerem aos seus genitores quanto os amam e são gratos pela vida.
Infelizmente, muitos não têm o privilégio da presença paterna. Pior, porém, são os que a tem e não dão valor. A força que um pai dá ao acompanhar, ajudar e ensinar um filho é um presente que jamais será esquecido. Por mais dificuldades que enfrente, a sensação de um filho em saber que terá o velho e querido pai para afagá-lo é um combustível incalculável para superar barreiras e vencer na vida.
Vivemos de exemplos e somos o espelho mais fiel de nossos pais. A fruta não cai longe do pé, definitivamente. Agosto é o mês do simbólico Dia dos Pais, uma data para comemorar, presentear e, acima de tudo, refletir. Ser pai é uma responsabilidade muito maior que dar dinheiro ou ter o nome na certidão de nascimento. Você já deu um beijo em sua filha e disse que ela é especial? Já disse ao seu filho hoje quanto o ama? E ao seu pai?
A menina aguardava na linha a confirmação do locutor. A resposta foi objetiva:
- É claro que vamos tocar!
O telefone voltou ao gancho. Era tarde, mas nunca demais para dar um basta naquele absurdo. Tudo tem limites, ainda mais quanto se fala em pais e filhos. Minutos depois, o sorriso da missão cumprida. Naquela noite, no embalo de Roberto Carlos, a homenagem foi ao ar com um ouvinte a mais na escuta.
Proibir palmadas pedagógicas é uma demagogia típica de falta de laço
15 de julho de 2010
Quem mora no Rio Grande do Sul já ouviu falar da expressão “falta de laço”. Ela é usada quando o gaúcho se depara com uma atitude absurda, errada ou sem critério. Traduzindo para o bom português: se faltou laço, faltou postura firme dos pais na educação. Não significa violência, mas responsabilidade. Pois o projeto de lei que proíbe as palmadas é uma demagogia típica de falta de laço.
A proposta proíbe a prática de castigos corporais em crianças, incluindo palmadas e beliscões. O encaminhamento da proposta ao Congresso marcou os 20 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Além da proibição, União, Estados, Distrito Federal e município terão de fazer campanhas educativas para orientar os pais e evitar que as crianças sejam vítimas de maus-tratos. A educação deve ser baseada somente no diálogo e no bom exemplo. A ideia é boa, mas na prática tudo é diferente.
A proposta é absurda por vários motivos. Primeiro porque o Estado não tem o direito de interferir na repreensão dos filhos. Antes disso, deveria cumprir com a obrigação de oferecer estrutura, educação, saúde, oportunidades e segurança, o que, aliás, é um dever não cumprido. É preciso ficar claro que repreender uma criança é um ato natural, pois ela está aprendendo a viver. Não significa descaso, mas amor. Afinal, repreender não significa agredir.
Coibir a violência é louvável, mas a “falta de laço” é um dos motivos de o Brasil estar desse jeito, com tantos absurdos acontecendo. Não sou pai, ainda, mas já fui filho. Levei meus “laços”, mas nunca fui espancado ou agredido. Digo, hoje, que aprendi muito com isso. Deveria levar e os levaria de novo. A tal palmada não é violência, mas disciplina. Claro que há casos que acabam em agressões físicas e humilhação, porém, generalizar sempre é um erro.
Quem é pai ou mãe sabe que uma palmadinha é um doce remédio quando na medida certa. A criança precisa ter limites. Enquanto os adultos têm a lei, a criança tem a autoridade dos pais. Antes que alguns me crucifiquem, reitero que não estou defendendo a violência ou o espancamento. Isso é deplorável. Falo de bom senso. Ninguém morre levando tapa na bunda.
Assim como eu, a maioria dos adultos de hoje recebeu castigos tradicionais e não ficou traumatizado com isso, muito menos virou bandido. Se cada um que levou umas palmadinhas fosse virar um adulto problemático, quem se salvaria? Em um país de tantas diferenças, generalizar situações familiares é cometer um equívoco gravíssimo.
Nossos avôs falam até hoje de como a disciplina interfere no comportamento. No passado, a postura era outra e o respeito também. Hoje, mima-se muito e permite-se mais ainda. Pura falta de laço. Todos os dias a gente se depara com jovens que roubam sabendo que serão liberados depois devido à fragilidade da lei. Qual é a moral disso? Isso é educar?
Atualmente, há crianças que mandam nos pais, são dissimuladas e com elas só diálogo não resolve. Há adolescentes estuprando e esquartejando meninas. Em Carazinho, há duas semanas, um menor correu armado e dando tiros na Praça Albino Hillebrand. Será por que apanham ou por que falta laço?
Ademais, o Código Penal prevê há 70 anos pena de um a quatro anos de prisão para quem abusar dos meios de correção ou disciplina. Por que ser redundante? Melhor: por que fazer uma nova lei ao invés de cumprir a que já existe? Cabe aos governantes ser mais responsáveis e menos demagogos. Aos pais, cabe encontrar o equilíbrio. Afinal, tudo que é demais faz mal, tanto o “laço” quanto o protecionismo.
Os filhos são o espelho dos pais. São moldados e disciplinados por quem os cria e educa. Dar bons exemplos, agir com honestidade e, principalmente, amor, é o caminho para evitar os tão temidos adultos problemáticos. A disciplina do laço ou “psicolaço”, como muitos dizem, provoca medo e sentir medo não faz mal. O pior é não ter medo de nada e fazer tudo sabendo que nada acontecerá.
Palmadinhas corretivas não são agressões. É preciso dosar, claro, mas o principal mesmo é que os pais se preocupem, acompanhem, corrijam e realmente eduquem os filhos. Trata-se de uma questão de amor e responsabilidade de cada família, sentimentos e atitudes que nenhuma lei será capaz de obrigar. Promover o respeito é um dever, mas a demagogia legal da palmada, desculpem-me, só pode ser falta de laço.
Quem mora no Rio Grande do Sul já ouviu falar da expressão “falta de laço”. Ela é usada quando o gaúcho se depara com uma atitude absurda, errada ou sem critério. Traduzindo para o bom português: se faltou laço, faltou postura firme dos pais na educação. Não significa violência, mas responsabilidade. Pois o projeto de lei que proíbe as palmadas é uma demagogia típica de falta de laço.
A proposta proíbe a prática de castigos corporais em crianças, incluindo palmadas e beliscões. O encaminhamento da proposta ao Congresso marcou os 20 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Além da proibição, União, Estados, Distrito Federal e município terão de fazer campanhas educativas para orientar os pais e evitar que as crianças sejam vítimas de maus-tratos. A educação deve ser baseada somente no diálogo e no bom exemplo. A ideia é boa, mas na prática tudo é diferente.
A proposta é absurda por vários motivos. Primeiro porque o Estado não tem o direito de interferir na repreensão dos filhos. Antes disso, deveria cumprir com a obrigação de oferecer estrutura, educação, saúde, oportunidades e segurança, o que, aliás, é um dever não cumprido. É preciso ficar claro que repreender uma criança é um ato natural, pois ela está aprendendo a viver. Não significa descaso, mas amor. Afinal, repreender não significa agredir.
Coibir a violência é louvável, mas a “falta de laço” é um dos motivos de o Brasil estar desse jeito, com tantos absurdos acontecendo. Não sou pai, ainda, mas já fui filho. Levei meus “laços”, mas nunca fui espancado ou agredido. Digo, hoje, que aprendi muito com isso. Deveria levar e os levaria de novo. A tal palmada não é violência, mas disciplina. Claro que há casos que acabam em agressões físicas e humilhação, porém, generalizar sempre é um erro.
Quem é pai ou mãe sabe que uma palmadinha é um doce remédio quando na medida certa. A criança precisa ter limites. Enquanto os adultos têm a lei, a criança tem a autoridade dos pais. Antes que alguns me crucifiquem, reitero que não estou defendendo a violência ou o espancamento. Isso é deplorável. Falo de bom senso. Ninguém morre levando tapa na bunda.
Assim como eu, a maioria dos adultos de hoje recebeu castigos tradicionais e não ficou traumatizado com isso, muito menos virou bandido. Se cada um que levou umas palmadinhas fosse virar um adulto problemático, quem se salvaria? Em um país de tantas diferenças, generalizar situações familiares é cometer um equívoco gravíssimo.
Nossos avôs falam até hoje de como a disciplina interfere no comportamento. No passado, a postura era outra e o respeito também. Hoje, mima-se muito e permite-se mais ainda. Pura falta de laço. Todos os dias a gente se depara com jovens que roubam sabendo que serão liberados depois devido à fragilidade da lei. Qual é a moral disso? Isso é educar?
Atualmente, há crianças que mandam nos pais, são dissimuladas e com elas só diálogo não resolve. Há adolescentes estuprando e esquartejando meninas. Em Carazinho, há duas semanas, um menor correu armado e dando tiros na Praça Albino Hillebrand. Será por que apanham ou por que falta laço?
Ademais, o Código Penal prevê há 70 anos pena de um a quatro anos de prisão para quem abusar dos meios de correção ou disciplina. Por que ser redundante? Melhor: por que fazer uma nova lei ao invés de cumprir a que já existe? Cabe aos governantes ser mais responsáveis e menos demagogos. Aos pais, cabe encontrar o equilíbrio. Afinal, tudo que é demais faz mal, tanto o “laço” quanto o protecionismo.
Os filhos são o espelho dos pais. São moldados e disciplinados por quem os cria e educa. Dar bons exemplos, agir com honestidade e, principalmente, amor, é o caminho para evitar os tão temidos adultos problemáticos. A disciplina do laço ou “psicolaço”, como muitos dizem, provoca medo e sentir medo não faz mal. O pior é não ter medo de nada e fazer tudo sabendo que nada acontecerá.
Palmadinhas corretivas não são agressões. É preciso dosar, claro, mas o principal mesmo é que os pais se preocupem, acompanhem, corrijam e realmente eduquem os filhos. Trata-se de uma questão de amor e responsabilidade de cada família, sentimentos e atitudes que nenhuma lei será capaz de obrigar. Promover o respeito é um dever, mas a demagogia legal da palmada, desculpem-me, só pode ser falta de laço.
Moda dos adesivos: bonitinha ou perigosa?
13 de julho de 2010
A moda do momento é os adesivos de bonequinhos. Para quem não conhece, basta observar a traseira dos veículos de Carazinho e da região. É impressionante a proliferação dos desenhos coloridos representando a família. Tem avô, avó, pai, mãe, filhos e até cães e gatos. Como toda moda gera polêmica, eis a pergunta do momento: a moda do adesivo é bonitinha ou perigosa?
Conheci os tais adesivos há algumas semanas, quando minha namorada olhou para mim e disse que tinha uma surpresa. De repente, puxou o casal desenhado e foi sorridente colar no carro. Gostei dos tais adesivos. São simples, diferentes e, mais que acessórios veiculares, representam sentimentos. Retratam relações através de identidades em miniatura que nos trazem lembranças e valores. Cada adesivo é um avatar.
Pois lendo artigos na internet, descobri que a moda dos adesivos anda causando pânico em muita gente. Para muitos, a febre causa literalmente dor de cabeça ao expor o proprietário do veículo e os familiares, tornando-os alvos para bandidos e oportunistas. Uma frase lida em um fórum me chamou a atenção: “afetividade se demonstra com atitudes e não com adesivos na traseira do carro”. Será?
Não consigo ver perigo nestes adesivos. O que para muitos é uma superexposição, para mim é uma brincadeira divertida com sentimentos reais. Duvido que um ladrão vá contar o número de adesivos para assaltar alguém, muito menos planejar um crime baseado no “retrato” familiar do carro. Vejo esta nova moda como uma oportunidade para valorizar as pessoas que se ama e, mais que isso, orgulhar-se de quem nos faz feliz.
Todos os dias, quando faço a volta na garagem e olho o meu carro, lembro de minha namorada. Ao ver minha família no carro do pai, tenho na memória cada um de nós e percebo o quanto isso é valioso. Encontro motivos para viver, trabalhar, aprender e crescer. Uma lembrança do quanto somos importantes e precisamos seguir o nosso caminho em busca de felicidade.
Como eu, tenho certeza que muitos fazem o mesmo. Assim como há outros que, sozinhos ou sem uma pessoa querida que já partiu, lembram com pesar da falta que alguém especial faz na vida. Apesar disso, encontram nos adesivos a origem da própria existência, seja nos diversos avatares da história ou na única caricatura em busca de completar este “álbum de figurinhas” da vida.
A moda dos adesivos pode ser vista como nociva, mas em tempos de tanta perdição, absurdos e falta de caráter e valores, poder colar uma família ou um relacionamento é sinal de orgulho e amor, sentimentos que nenhum bandido poderá levar e nunca mais devolver. Certa vez, o dramaturgo francês Armand Salacrou disse que “um homem sem lembranças é um homem perdido”. Temos história e lembrá-la com um gesto simples de amor é um dever que todos deveriam colar para sempre na consciência.
A moda do momento é os adesivos de bonequinhos. Para quem não conhece, basta observar a traseira dos veículos de Carazinho e da região. É impressionante a proliferação dos desenhos coloridos representando a família. Tem avô, avó, pai, mãe, filhos e até cães e gatos. Como toda moda gera polêmica, eis a pergunta do momento: a moda do adesivo é bonitinha ou perigosa?
Conheci os tais adesivos há algumas semanas, quando minha namorada olhou para mim e disse que tinha uma surpresa. De repente, puxou o casal desenhado e foi sorridente colar no carro. Gostei dos tais adesivos. São simples, diferentes e, mais que acessórios veiculares, representam sentimentos. Retratam relações através de identidades em miniatura que nos trazem lembranças e valores. Cada adesivo é um avatar.
Pois lendo artigos na internet, descobri que a moda dos adesivos anda causando pânico em muita gente. Para muitos, a febre causa literalmente dor de cabeça ao expor o proprietário do veículo e os familiares, tornando-os alvos para bandidos e oportunistas. Uma frase lida em um fórum me chamou a atenção: “afetividade se demonstra com atitudes e não com adesivos na traseira do carro”. Será?
Não consigo ver perigo nestes adesivos. O que para muitos é uma superexposição, para mim é uma brincadeira divertida com sentimentos reais. Duvido que um ladrão vá contar o número de adesivos para assaltar alguém, muito menos planejar um crime baseado no “retrato” familiar do carro. Vejo esta nova moda como uma oportunidade para valorizar as pessoas que se ama e, mais que isso, orgulhar-se de quem nos faz feliz.
Todos os dias, quando faço a volta na garagem e olho o meu carro, lembro de minha namorada. Ao ver minha família no carro do pai, tenho na memória cada um de nós e percebo o quanto isso é valioso. Encontro motivos para viver, trabalhar, aprender e crescer. Uma lembrança do quanto somos importantes e precisamos seguir o nosso caminho em busca de felicidade.
Como eu, tenho certeza que muitos fazem o mesmo. Assim como há outros que, sozinhos ou sem uma pessoa querida que já partiu, lembram com pesar da falta que alguém especial faz na vida. Apesar disso, encontram nos adesivos a origem da própria existência, seja nos diversos avatares da história ou na única caricatura em busca de completar este “álbum de figurinhas” da vida.
A moda dos adesivos pode ser vista como nociva, mas em tempos de tanta perdição, absurdos e falta de caráter e valores, poder colar uma família ou um relacionamento é sinal de orgulho e amor, sentimentos que nenhum bandido poderá levar e nunca mais devolver. Certa vez, o dramaturgo francês Armand Salacrou disse que “um homem sem lembranças é um homem perdido”. Temos história e lembrá-la com um gesto simples de amor é um dever que todos deveriam colar para sempre na consciência.
O beijo de Casillas
12 de julho de 2010
Seria um crime ver a Holanda campeã do mundo. Os deuses do futebol não poderiam permitir à laranja ostentar a estrela no peito e o rótulo de melhor seleção do planeta. Burocrático, turrão e defensivo, o futebol holandês apresentado na Copa não merecia tal honra diante de uma Espanha equilibrada, aguerrida, técnica e vencedora.
Certa vez, Ayrton Senna disse que em todos os anos há vencedores, mas somente em alguns há campeões. A vitória holandesa ontem provaria que nem sempre o melhor vence e, na Copa do Mundo, zebras até batem na porta, mas não erguem a taça. O mundial terminou sem um craque unânime, com grotescos erros de arbitragem e muitas surpresas. Zidane estava certo ao dizer que desta edição só seria lembrado o campeão. O desfecho foi justo e perfeito.
A Espanha fez história, quebrou a sina de amarelar em decisões e, com o melhor grupo de atletas que já teve em todos os tempos, entrou no seleto grupo de nove seleções campeãs. De quebra, pendeu a balança para o lado europeu no duelo contra os sul-americanos: agora, está 10 a 9 em conquistas. Há vários personagens do título, mas um merece atenção especial de todos nós: Iker Casillas.
O capitão espanhol iniciou a competição sob pressão. O seu Real Madri patinou feio na temporada de clubes. No mundial, a derrota na estreia contra a Suíça parecia transformar tudo em filme de terror. Casillas foi criticado pela imprensa, que chegou a relacionar o “fraco” desempenho à presença da namorada dele e repórter televisiva Sara Carbonero atrás do gol espanhol.
Pois o que fez Casillas diante de tamanha responsabilidade? Mostrou quem era. Concentrado, fechou o gol na primeira fase. Fez milagre nas oitavas. Defendeu pênalti e encaixou a temida Jabulani nas quartas. Na semi, parou o ataque goleador da sensação Alemanha. Na final, venceu o duelo cara a cara contra o astro holandês Robben. Recebeu a taça, ergueu o sonho espanhol e, no fim, protagonizou outro momento mágico e inesquecível.
Ao sair do campo, foi entrevistado pela namorada. Falou da emoção da primeira conquista da Espanha em uma Copa do Mundo e, ao vivo, surpreendeu o mundo respondendo às críticas com um beijo. Um “tapa de luva” espetacular. Pressionado pela desconfiança, reagiu com competência e maturidade. Uma postura recompensada pelos deuses do futebol com o sabor da vitória. Enquanto o Brasil tremeu, Casillas beijou e conquistou Sara e a taça. Eis a lição do capitão campeão ao futuro país da Copa.
Seria um crime ver a Holanda campeã do mundo. Os deuses do futebol não poderiam permitir à laranja ostentar a estrela no peito e o rótulo de melhor seleção do planeta. Burocrático, turrão e defensivo, o futebol holandês apresentado na Copa não merecia tal honra diante de uma Espanha equilibrada, aguerrida, técnica e vencedora.
Certa vez, Ayrton Senna disse que em todos os anos há vencedores, mas somente em alguns há campeões. A vitória holandesa ontem provaria que nem sempre o melhor vence e, na Copa do Mundo, zebras até batem na porta, mas não erguem a taça. O mundial terminou sem um craque unânime, com grotescos erros de arbitragem e muitas surpresas. Zidane estava certo ao dizer que desta edição só seria lembrado o campeão. O desfecho foi justo e perfeito.
A Espanha fez história, quebrou a sina de amarelar em decisões e, com o melhor grupo de atletas que já teve em todos os tempos, entrou no seleto grupo de nove seleções campeãs. De quebra, pendeu a balança para o lado europeu no duelo contra os sul-americanos: agora, está 10 a 9 em conquistas. Há vários personagens do título, mas um merece atenção especial de todos nós: Iker Casillas.
O capitão espanhol iniciou a competição sob pressão. O seu Real Madri patinou feio na temporada de clubes. No mundial, a derrota na estreia contra a Suíça parecia transformar tudo em filme de terror. Casillas foi criticado pela imprensa, que chegou a relacionar o “fraco” desempenho à presença da namorada dele e repórter televisiva Sara Carbonero atrás do gol espanhol.
Pois o que fez Casillas diante de tamanha responsabilidade? Mostrou quem era. Concentrado, fechou o gol na primeira fase. Fez milagre nas oitavas. Defendeu pênalti e encaixou a temida Jabulani nas quartas. Na semi, parou o ataque goleador da sensação Alemanha. Na final, venceu o duelo cara a cara contra o astro holandês Robben. Recebeu a taça, ergueu o sonho espanhol e, no fim, protagonizou outro momento mágico e inesquecível.
Ao sair do campo, foi entrevistado pela namorada. Falou da emoção da primeira conquista da Espanha em uma Copa do Mundo e, ao vivo, surpreendeu o mundo respondendo às críticas com um beijo. Um “tapa de luva” espetacular. Pressionado pela desconfiança, reagiu com competência e maturidade. Uma postura recompensada pelos deuses do futebol com o sabor da vitória. Enquanto o Brasil tremeu, Casillas beijou e conquistou Sara e a taça. Eis a lição do capitão campeão ao futuro país da Copa.
Você namoraria uma atendente de telemarketing?
28 de maio de 2010
O telemarketing é um inferno. Era isso que passava na minha cabeça por volta das 18h30min de ontem. Presenciei uma tentativa de cancelamento de serviço via telefone e, mesmo não interagindo com a atendente, meu desejo era interferir e acabar com aquele suplício sem fim. O telefone e a internet rompem fronteiras, sim. O problema é que a insistência desenfreada é uma chatice sem fim.
O motivo da ligação era o cancelamento do provedor de internet. A simpática moça do telemarketing insistia como criança teimosa em supermercado. Queria porque queria e pronto. Após quatro negativas veementes, ela pinçava sabe-se lá de onde outro argumento. Era voraz. Está certo que é bom ser persistente na vida, mas ontem cheguei à conclusão que persistir acima do limite irrita demais.
Dizem os conselheiros que é preciso saber dizer ‘não’ para subir na vida. Para aquela moça do telemarketing, porém, o ‘não’ é palavra inexistente no dicionário. Ela não aceitava de forma alguma. Fico imaginando a reação do namorado ou marido quando a mulher pergunta algo. Deve ser um pânico total.
- Amor, a mamãe vai morar aqui conosco e trará todos os bichinhos dela. Você concorda, não é?
Já pensou se ele responde não? Meu Deus. Se uma mulher contrariada já vira um leão, imagina uma atendente de telemarketing. Elas estão preparadas para ouvir e reagir ao não. Teimar com elas é loucura. A esperança é que elas saibam lidar com esse comportamento único apenas via telefone. Afinal, se mantiverem essa insistência olho no olho, o trauma é irreversível.
Brincadeiras à parte, as moças do telemarketing são treinadas e fazem o trabalho delas. São obrigadas a serem insistentes, a convencerem clientes mostrando todas as vantagens do produto. Por isso, devem ser tratadas com paciência. Também é preciso dizer que há muitos homens fazendo telemarketing. Aí a lógica se inverte e ai da mulher que teimar com o vivente. São especialistas na arte do ‘não’.
O fundamental, porém, é que os atendentes de telemarketing percebam que para tudo há um limite. Hoje, o estresse é tanto com este tema que mesmo os mais simples e objetivos profissionais acabam rotulados como os “chatos do telefone”. Se o cliente diz não, talvez aquela negativa possa virar um sim. Mas após quatro negações, é impossível. Pedro negou Cristo três vezes e Jesus sabia que não haveria uma quarta vez.
Aliás, é engraçado como o tempo para assinar um serviço é rapidíssimo e exatamente o contrário de quando a intenção é romper o contrato. Dizem alguns que parece casamento: fácil no começo, difícil no fim. As mil maravilhas do início se transformam em filme de terror na hora do adeus. Uma luta estressante, mas necessária.
Há várias pessoas que despistam o telemarketing. Pedem cinco minutinhos para estacionar o carro e nunca mais atendem. Outros atendem e, ao ouvirem o próprio nome, mudam de identidade, fingindo ser amigo ou parente de si mesmo e informando algo como “eu saí e só volto depois”. As técnicas são muitas e, claro, surgiram porque não há paciência no mundo que faça hoje uma pessoa passar a vida toda sem um incômodo com o telemarketing.
Apesar das centenas de pesares, não vale a pena desprezar o sistema. Afinal, há situações, mesmo que raras, em que a proposta oferecida é vantajosa. Além disso, apesar de insistentes, as atendentes são educadas. Falam polidamente e sempre com respeito, mesmo ouvindo calúnias e reações raivosas do outro lado da linha. No aspecto gentleman são exemplos de civilidade.
Mesmo assim, a verdade é que hoje somos reféns do telemarketing e precisamos estar acostumados a receber ligações. Ouvir não custa nada e a recompensa pode ser boa. Se for interessante, um só sim basta. Caso contrário, prepare-se para dizer uma série de nãos. Faça sua escolha e lembre-se da ex-primeira-ministra inglesa, Margaret Thatcher. Em uma frase sobre si, ela resumiu com perfeição este espírito persistente do telemarketing: “eu sou extraordinariamente paciente, desde que consiga o que quero”.
O telemarketing é um inferno. Era isso que passava na minha cabeça por volta das 18h30min de ontem. Presenciei uma tentativa de cancelamento de serviço via telefone e, mesmo não interagindo com a atendente, meu desejo era interferir e acabar com aquele suplício sem fim. O telefone e a internet rompem fronteiras, sim. O problema é que a insistência desenfreada é uma chatice sem fim.
O motivo da ligação era o cancelamento do provedor de internet. A simpática moça do telemarketing insistia como criança teimosa em supermercado. Queria porque queria e pronto. Após quatro negativas veementes, ela pinçava sabe-se lá de onde outro argumento. Era voraz. Está certo que é bom ser persistente na vida, mas ontem cheguei à conclusão que persistir acima do limite irrita demais.
Dizem os conselheiros que é preciso saber dizer ‘não’ para subir na vida. Para aquela moça do telemarketing, porém, o ‘não’ é palavra inexistente no dicionário. Ela não aceitava de forma alguma. Fico imaginando a reação do namorado ou marido quando a mulher pergunta algo. Deve ser um pânico total.
- Amor, a mamãe vai morar aqui conosco e trará todos os bichinhos dela. Você concorda, não é?
Já pensou se ele responde não? Meu Deus. Se uma mulher contrariada já vira um leão, imagina uma atendente de telemarketing. Elas estão preparadas para ouvir e reagir ao não. Teimar com elas é loucura. A esperança é que elas saibam lidar com esse comportamento único apenas via telefone. Afinal, se mantiverem essa insistência olho no olho, o trauma é irreversível.
Brincadeiras à parte, as moças do telemarketing são treinadas e fazem o trabalho delas. São obrigadas a serem insistentes, a convencerem clientes mostrando todas as vantagens do produto. Por isso, devem ser tratadas com paciência. Também é preciso dizer que há muitos homens fazendo telemarketing. Aí a lógica se inverte e ai da mulher que teimar com o vivente. São especialistas na arte do ‘não’.
O fundamental, porém, é que os atendentes de telemarketing percebam que para tudo há um limite. Hoje, o estresse é tanto com este tema que mesmo os mais simples e objetivos profissionais acabam rotulados como os “chatos do telefone”. Se o cliente diz não, talvez aquela negativa possa virar um sim. Mas após quatro negações, é impossível. Pedro negou Cristo três vezes e Jesus sabia que não haveria uma quarta vez.
Aliás, é engraçado como o tempo para assinar um serviço é rapidíssimo e exatamente o contrário de quando a intenção é romper o contrato. Dizem alguns que parece casamento: fácil no começo, difícil no fim. As mil maravilhas do início se transformam em filme de terror na hora do adeus. Uma luta estressante, mas necessária.
Há várias pessoas que despistam o telemarketing. Pedem cinco minutinhos para estacionar o carro e nunca mais atendem. Outros atendem e, ao ouvirem o próprio nome, mudam de identidade, fingindo ser amigo ou parente de si mesmo e informando algo como “eu saí e só volto depois”. As técnicas são muitas e, claro, surgiram porque não há paciência no mundo que faça hoje uma pessoa passar a vida toda sem um incômodo com o telemarketing.
Apesar das centenas de pesares, não vale a pena desprezar o sistema. Afinal, há situações, mesmo que raras, em que a proposta oferecida é vantajosa. Além disso, apesar de insistentes, as atendentes são educadas. Falam polidamente e sempre com respeito, mesmo ouvindo calúnias e reações raivosas do outro lado da linha. No aspecto gentleman são exemplos de civilidade.
Mesmo assim, a verdade é que hoje somos reféns do telemarketing e precisamos estar acostumados a receber ligações. Ouvir não custa nada e a recompensa pode ser boa. Se for interessante, um só sim basta. Caso contrário, prepare-se para dizer uma série de nãos. Faça sua escolha e lembre-se da ex-primeira-ministra inglesa, Margaret Thatcher. Em uma frase sobre si, ela resumiu com perfeição este espírito persistente do telemarketing: “eu sou extraordinariamente paciente, desde que consiga o que quero”.
Nunca deixe de tentar
24 de maio de 2010
Era 08h15min de sábado. Eu esperava o avião rumo a Porto Alegre passeando pelo Aeroporto de Congonhas. Já estava em direção ao portão de embarque quando, de repente, avistei uma livraria. Fico hipnotizado com livrarias. A atração é como imã, irrefreável. Eu só teria cinco minutos lá dentro. Foram o suficiente para encontrar, na parte de cima da prateleira, um livro intitulado “Nunca deixe de tentar”.
Na capa, o astro do basquete mundial Michael Jordan. Fiquei hipnotizado. Afinal, adoro ler histórias, biografias e exemplos de vida de personalidades de sucesso. De Bernardinho a Barack Obama, é muito bom conhecer a origem e os passos alcançados por quem venceu na vida. Olhei a orelha do livro e, imediatamente, fui ao caixa. Não havia dúvidas nem tempo para pensar. Paguei e saí rumo ao embarque.
Fui ver com mais calma o livro somente dentro do avião. Foi um fascínio. Mais que a trajetória do campeão, a obra traz valores que transcendem o universo esportivo e podem ser aplicados à vida pessoal e profissional de qualquer um, independentemente da função que ocupa.
Não há como resumir o livro, mas há pontos cruciais que merecem reflexão: a busca constante pela excelência, a importância de fixar metas, manter o foco e não se deixar paralisar pelo medo e, principalmente, encarar o fracasso como combustível para novas tentativas. Na vida, como no esporte, o fundamental não é ganhar ou perder, mas aprender para evoluir.
A trajetória de Jordan, seis vezes campeão da NBA e bicampeão olímpico, sempre é associada a talento e vitória. Por outro lado, é na disciplina, coragem, espírito de equipe e preparação que estão os diferenciais. O maior deles, porém, o astro do basquete faz questão de mencionar: valores. A honra, a dignidade e a humildade são os pilares que hoje tanto faz falta na vida de quem prefere reclamar a reagir.
Hoje, vemos menores matando e traficando, mães vendendo as filhas, pais roubando para sustentar a família e muitos outros exemplos. São poucos os que têm condições adequadas e oportunidades para vencer, mas nada justifica a perda dos valores. Assim como há pobres honestos e batalhadores para uma vida melhor, há ricos gananciosos e corruptos. A maior pobreza, no entanto, é e sempre será a de espírito.
Uma vitória nunca é para sempre. Agora, vencer objetivos e derrotar os obstáculos que nos limitam são a verdadeira lição. Não se comparar aos outros, mas a si mesmo. Lições de um campeão que, ao revelá-las, mostra mais uma face de que não há segredos nem limites para quem faz por merecer. Na música Mais uma vez, Renato Russo já dizia: “quem acredita, sempre alcança”. Portanto, por mais que seja difícil e mesmo que muitos ajam com descrença ou desconfiança, lembre-se: nunca deixe de tentar.
Era 08h15min de sábado. Eu esperava o avião rumo a Porto Alegre passeando pelo Aeroporto de Congonhas. Já estava em direção ao portão de embarque quando, de repente, avistei uma livraria. Fico hipnotizado com livrarias. A atração é como imã, irrefreável. Eu só teria cinco minutos lá dentro. Foram o suficiente para encontrar, na parte de cima da prateleira, um livro intitulado “Nunca deixe de tentar”.
Na capa, o astro do basquete mundial Michael Jordan. Fiquei hipnotizado. Afinal, adoro ler histórias, biografias e exemplos de vida de personalidades de sucesso. De Bernardinho a Barack Obama, é muito bom conhecer a origem e os passos alcançados por quem venceu na vida. Olhei a orelha do livro e, imediatamente, fui ao caixa. Não havia dúvidas nem tempo para pensar. Paguei e saí rumo ao embarque.
Fui ver com mais calma o livro somente dentro do avião. Foi um fascínio. Mais que a trajetória do campeão, a obra traz valores que transcendem o universo esportivo e podem ser aplicados à vida pessoal e profissional de qualquer um, independentemente da função que ocupa.
Não há como resumir o livro, mas há pontos cruciais que merecem reflexão: a busca constante pela excelência, a importância de fixar metas, manter o foco e não se deixar paralisar pelo medo e, principalmente, encarar o fracasso como combustível para novas tentativas. Na vida, como no esporte, o fundamental não é ganhar ou perder, mas aprender para evoluir.
A trajetória de Jordan, seis vezes campeão da NBA e bicampeão olímpico, sempre é associada a talento e vitória. Por outro lado, é na disciplina, coragem, espírito de equipe e preparação que estão os diferenciais. O maior deles, porém, o astro do basquete faz questão de mencionar: valores. A honra, a dignidade e a humildade são os pilares que hoje tanto faz falta na vida de quem prefere reclamar a reagir.
Hoje, vemos menores matando e traficando, mães vendendo as filhas, pais roubando para sustentar a família e muitos outros exemplos. São poucos os que têm condições adequadas e oportunidades para vencer, mas nada justifica a perda dos valores. Assim como há pobres honestos e batalhadores para uma vida melhor, há ricos gananciosos e corruptos. A maior pobreza, no entanto, é e sempre será a de espírito.
Uma vitória nunca é para sempre. Agora, vencer objetivos e derrotar os obstáculos que nos limitam são a verdadeira lição. Não se comparar aos outros, mas a si mesmo. Lições de um campeão que, ao revelá-las, mostra mais uma face de que não há segredos nem limites para quem faz por merecer. Na música Mais uma vez, Renato Russo já dizia: “quem acredita, sempre alcança”. Portanto, por mais que seja difícil e mesmo que muitos ajam com descrença ou desconfiança, lembre-se: nunca deixe de tentar.
Vida online: remédio para a timidez, doença para a alma
17 de maio de 2010
Refletir é uma das virtudes humanas. Por opção ou pura ignorância, é privilégio de poucos. Antigamente, cabia aos sábios e filósofos a tarefa de pensar para transformar a sociedade. Ultimamente, porém, a reflexão expandiu-se de tal maneira e ganhou uma ferramenta poderosa e abrangente: a internet. Virou moda refletir, sonhar, pensar, contar intimidades e dar lições de vida, principalmente no MSN e no Twitter.
Há muitos sites com mensagens e textos reflexivos escritos por especialistas em determinado tema. Mas o mais instigante é ver as manifestações de quem não é entendedor certificado do assunto. Pessoas que vencem, perdem, sorriem ou sofrem e já expressam em frases, versos ou simples palavras mensagens que soam como alerta, conselho, desespero e autoconfiança. A filosofia virtual reinventa a vida de todos.
Estou há dias observando meus contatos no MSN para escrever esta coluna. É surpreendente o que se percebe quando se faz uma observação cuidadosa. O nome dos amigos é detalhe perto dos dizeres que compõem o tal nick virtual. Tem conselho para dor de amor, dicas para uma vida feliz, alerta para os perigos dos “falsos amigos”, descontentamento com o trabalho, propaganda, corneta futebolística, desejos calientes e muito mais.
A identidade virtual permite tal liberdade. A timidez é virada do avesso em uma exposição voluntária da vida em busca de atenção. Uma atitude que mistura uma carência com um desejo de expressar-se loucamente e ser correspondido. No dia a dia, tudo é diferente. Você chegaria para alguém e diria “sou o fulano, estou com dor, faltam 15 dias para o grande dia”? Ninguém revela intimidades, sentimentos ou emoções desse jeito a não ser pela internet.
No Twitter, a realidade é a mesma. Em 140 caracteres, o indivíduo conta que foi pescar no fim de semana, que vai jantar com os amigos no sábado e que marcou três gols na pelada de quinta à noite. Diz até que está frio. E daí? Quando diria isso, assim, só por dizer a sabe lá quem? Talvez nem no elevador. A liberdade de autorizar ou não o contato de uma pessoa via MSN ou Twitter restringe, mas não evita o sumiço da timidez. A internet é o maior espaço público do mundo e, sim, é uma carta de alforria que traz uma liberdade “afrodisíaca” pelo ambiente virtual.
Quantas amizades surgiram pelo contato online? Até negócios, namoros e casamentos nascem pela troca de palavras digitadas. Vizinhos se comunicam pela internet. Colegas de trabalho se falam, na mesma sala, sem mover a boca. Assim como abre portas para os tímidos de plantão, a internet é vilã ao reduzir o contato humano. Um beijo ou abraço virtual não se compara a um real. Encurtam-se distâncias, mas perdem-se sentimentos.
Um “eu te amo” online não se compara a um dito no olho no olho. O abraço virtual de um pai e de uma mãe jamais trará a mesma sensação. O ato de dar parabéns não tem o mesmo peso que o dito pessoalmente. A flor digital não substitui a colhida no jardim. A certeza de um olhar ou a doçura de um sorriso jamais será substituída via contato eletrônico. A presença virtual nunca será tão significativa quanto a real.
A tecnologia tende a tornar tudo mais fácil, mas jamais tirará o sentido literal de estar ao lado de alguém. Há perdas e ganhos em tudo e a internet tem inúmeras vantagens. Em termos de relação humana, porém, é apenas a chave que abre a porta. Um caminho, nunca o destino. Permite muito, quase tudo, mas restringe o principal. Afinal, não há sentido em se comunicar, comprar, vender, aconselhar, paquerar, lamentar, pedir atenção e até revelar segredos se não for com o pensamento em alguém. Sempre é bom estar online, mas melhor é viver o mundo real e seus desafios. Essa, sim, é a conexão mais importante.
Refletir é uma das virtudes humanas. Por opção ou pura ignorância, é privilégio de poucos. Antigamente, cabia aos sábios e filósofos a tarefa de pensar para transformar a sociedade. Ultimamente, porém, a reflexão expandiu-se de tal maneira e ganhou uma ferramenta poderosa e abrangente: a internet. Virou moda refletir, sonhar, pensar, contar intimidades e dar lições de vida, principalmente no MSN e no Twitter.
Há muitos sites com mensagens e textos reflexivos escritos por especialistas em determinado tema. Mas o mais instigante é ver as manifestações de quem não é entendedor certificado do assunto. Pessoas que vencem, perdem, sorriem ou sofrem e já expressam em frases, versos ou simples palavras mensagens que soam como alerta, conselho, desespero e autoconfiança. A filosofia virtual reinventa a vida de todos.
Estou há dias observando meus contatos no MSN para escrever esta coluna. É surpreendente o que se percebe quando se faz uma observação cuidadosa. O nome dos amigos é detalhe perto dos dizeres que compõem o tal nick virtual. Tem conselho para dor de amor, dicas para uma vida feliz, alerta para os perigos dos “falsos amigos”, descontentamento com o trabalho, propaganda, corneta futebolística, desejos calientes e muito mais.
A identidade virtual permite tal liberdade. A timidez é virada do avesso em uma exposição voluntária da vida em busca de atenção. Uma atitude que mistura uma carência com um desejo de expressar-se loucamente e ser correspondido. No dia a dia, tudo é diferente. Você chegaria para alguém e diria “sou o fulano, estou com dor, faltam 15 dias para o grande dia”? Ninguém revela intimidades, sentimentos ou emoções desse jeito a não ser pela internet.
No Twitter, a realidade é a mesma. Em 140 caracteres, o indivíduo conta que foi pescar no fim de semana, que vai jantar com os amigos no sábado e que marcou três gols na pelada de quinta à noite. Diz até que está frio. E daí? Quando diria isso, assim, só por dizer a sabe lá quem? Talvez nem no elevador. A liberdade de autorizar ou não o contato de uma pessoa via MSN ou Twitter restringe, mas não evita o sumiço da timidez. A internet é o maior espaço público do mundo e, sim, é uma carta de alforria que traz uma liberdade “afrodisíaca” pelo ambiente virtual.
Quantas amizades surgiram pelo contato online? Até negócios, namoros e casamentos nascem pela troca de palavras digitadas. Vizinhos se comunicam pela internet. Colegas de trabalho se falam, na mesma sala, sem mover a boca. Assim como abre portas para os tímidos de plantão, a internet é vilã ao reduzir o contato humano. Um beijo ou abraço virtual não se compara a um real. Encurtam-se distâncias, mas perdem-se sentimentos.
Um “eu te amo” online não se compara a um dito no olho no olho. O abraço virtual de um pai e de uma mãe jamais trará a mesma sensação. O ato de dar parabéns não tem o mesmo peso que o dito pessoalmente. A flor digital não substitui a colhida no jardim. A certeza de um olhar ou a doçura de um sorriso jamais será substituída via contato eletrônico. A presença virtual nunca será tão significativa quanto a real.
A tecnologia tende a tornar tudo mais fácil, mas jamais tirará o sentido literal de estar ao lado de alguém. Há perdas e ganhos em tudo e a internet tem inúmeras vantagens. Em termos de relação humana, porém, é apenas a chave que abre a porta. Um caminho, nunca o destino. Permite muito, quase tudo, mas restringe o principal. Afinal, não há sentido em se comunicar, comprar, vender, aconselhar, paquerar, lamentar, pedir atenção e até revelar segredos se não for com o pensamento em alguém. Sempre é bom estar online, mas melhor é viver o mundo real e seus desafios. Essa, sim, é a conexão mais importante.
Na madrugada, ouvi a morte e fui baleado na consciência
19 de abril de 2010
A quinta-feira havia terminado. O fim de semana estava próximo. Após o banho, entrei no quarto disposto a ter uma boa noite de sono para mais um dia de trabalho. O relógio marcava 00h40min de sexta-feira. Ajeitei-me, liguei a luz de cabeceira e comecei a ler um livro. Menos de dez minutos depois, ouvi um estampido. Seco, seguido de silêncio e rodeado de dúvidas e medo.
Ouvi um estouro, algo como uma bomba ou um tiro. Na hora, não imaginava o que podia ter acontecido. A casa estava em silêncio. Larguei o livro e agucei os ouvidos. Não havia barulho. Não houve gritos nem lamentações. Nada, absolutamente. O silêncio era total e não dava margens a imaginar o que tivesse acontecido. Naquela hora, as possibilidades eram muitas, mas o silêncio desafiava.
Passei cerca de dez minutos esperando. Nada. O sono voltou, desliguei a luz e dormi. No outro dia, chegando à rádio, a surpresa. O que ouvi seis horas e quinze minutos antes, na cama, lendo, era o sexto homicídio do ano em Carazinho. Éberton Cassiamani, de 24 anos, levou um tiro apenas. Ele foi atingido nas costas, na Rua Lourival Vargas, no bairro Vila Rica. A bala de revólver atravessou na região do peito o corpo do jovem, que não resistiu aos ferimentos ao chegar até o HCC na madrugada de sexta-feira.
A segurança pública é um dos três pilares essenciais da sobrevivência humana. Juntamente com saúde e educação, sustentam o desenvolvimento das populações e as direcionam para a evolução ou estagnação. Nos dias de hoje, porém, estar seguro está cada vez mais complicado. A morte passa perto, ao lado, deixando no ar aquela sensação de que o pior pode acontecer a qualquer instante.
Os órgãos de segurança pública fazem sua parte dentro das condições que lhe são oferecidas. Aliás, muito mais do que podem. Casos como o homicídio da Vila Rica são fatos que só um método pode evitar: prevenção. Não há como policiais imaginarem como, quando e onde acontecerá o crime. Evitá-lo, portanto, é lenda. Preveni-lo, porém, é uma ação que demanda mais que reforço de efetivo ou armamento. É preciso trabalhar diretamente onde tudo acontece: na consciência.
Diz o ditado que prevenir é melhor que remediar. O problema é que a prevenção na segurança pública é um trabalho lento. De formiguinha, como dizem muitos. Transformar a consciência de potenciais criminosos envoltos em uma rede de drogas, miserabilidade e falta de perspectivas envolve uma série de medidas. É um trabalho plural que jamais surtirá efeitos com ações isoladas.
A dúvida que paira no ar é se a sociedade realmente quer essa mudança. Barbaridades acontecem diariamente e qual é a resposta? Conformismo e esperança. Só isso não basta. Uma cidade livre de crimes é impossível. É utópico. Por outro lado, quando o crime bate na porta e ganha proporções cada vez mais preocupantes, é preciso uma reação imediata sob pena de se perder para sempre o controle.
Desde janeiro, Carazinho teve seis homicídios. Nos últimos dez dias, foram dois. Em um dos casos, um jovem foi baleado fatalmente enquanto andava de moto. Isso sem contar os diversos registros que entopem a Delegacia de Polícia e a Brigada Militar. Até a Prefeitura foi invadida recentemente. É preciso, urgentemente, sacudir a sociedade para que acorde e perceba que algo está errado. Hoje, infelizmente, as pessoas de bem estão se omitindo pelo medo de serem alvos. Enquanto isso, a criminalidade cresce e a polícia, por mais esforço que faça, não dá conta de tanta demanda.
Talvez seminários e encontros possam ser alternativas. Por outro lado, o esforço exemplar de quem promove de nada adiantará se quem estiver sentado assistindo estiver focado mais em parecer preocupado com o tema do que efetivamente estar. Afinal, a aparência de ação é pior que não participar, pois além de não se preocupar, a pessoa mente para si e para os outros. Hoje, diante deste quadro, só resta uma opção: investir nas crianças.
Programas educacionais e de orientação nas escolas são as ferramentas que podem mudar essa realidade no futuro. Dar oportunidades e atenção a estas crianças é dever de uma sociedade que, aos poucos, vira refém de si mesma. Até quando ousaremos esperar? Quem sabe a criação de um Programa Municipal de Prevenção da Violência, com ações conjuntas, congregação de projetos em andamento e envolvimento direto das escolas e universidades, possa abrir as portas para esta mudança.
Enquanto isso, a sensação de medo permanece. Naquela madrugada, ouvi mais que o sinal da morte de alguém. Foi um tiro na consciência que cada um deveria levar. Os minutos após aquele estampido pareciam intermináveis. Nenhum barulho. Não havia respostas, muito menos reações. Foi no silêncio daquele ato que me pus a pensar sobre o que poderá nos esperar na próxima esquina ou logo ali na rua perto de casa.
Até voltou em minha mente um episódio ocorrido em 2001. Eu estava voltando a pé para casa quando, a duas quadras do destino, fui surpreendido por um jovem alto e forte que roubou meus tênis. Ele me levou até uma pracinha do bairro para que ninguém presenciasse o assalto. Foi duro passar em frente a minha casa sem poder reagir e com medo de que coisas piores acontecessem. É este temor impotente que devemos combater.
Hoje, somos vítimas da própria omissão. No futuro, talvez sejamos do sistema que deixamos tomar conta. Vencer o medo é difícil, mas viver com medo é muito pior. Hamlet, o personagem épico de Shakespeare, sofreu e passou a vida tentando vingar a morte do pai. Como ele, hoje nós estamos vivendo entre a loucura e a razão. Que, juntos, possamos evitar o caminho da vingança. É na atitude, no respeito e no enfrentamento do medo que acharemos a saída. O resto é silêncio.
A quinta-feira havia terminado. O fim de semana estava próximo. Após o banho, entrei no quarto disposto a ter uma boa noite de sono para mais um dia de trabalho. O relógio marcava 00h40min de sexta-feira. Ajeitei-me, liguei a luz de cabeceira e comecei a ler um livro. Menos de dez minutos depois, ouvi um estampido. Seco, seguido de silêncio e rodeado de dúvidas e medo.
Ouvi um estouro, algo como uma bomba ou um tiro. Na hora, não imaginava o que podia ter acontecido. A casa estava em silêncio. Larguei o livro e agucei os ouvidos. Não havia barulho. Não houve gritos nem lamentações. Nada, absolutamente. O silêncio era total e não dava margens a imaginar o que tivesse acontecido. Naquela hora, as possibilidades eram muitas, mas o silêncio desafiava.
Passei cerca de dez minutos esperando. Nada. O sono voltou, desliguei a luz e dormi. No outro dia, chegando à rádio, a surpresa. O que ouvi seis horas e quinze minutos antes, na cama, lendo, era o sexto homicídio do ano em Carazinho. Éberton Cassiamani, de 24 anos, levou um tiro apenas. Ele foi atingido nas costas, na Rua Lourival Vargas, no bairro Vila Rica. A bala de revólver atravessou na região do peito o corpo do jovem, que não resistiu aos ferimentos ao chegar até o HCC na madrugada de sexta-feira.
A segurança pública é um dos três pilares essenciais da sobrevivência humana. Juntamente com saúde e educação, sustentam o desenvolvimento das populações e as direcionam para a evolução ou estagnação. Nos dias de hoje, porém, estar seguro está cada vez mais complicado. A morte passa perto, ao lado, deixando no ar aquela sensação de que o pior pode acontecer a qualquer instante.
Os órgãos de segurança pública fazem sua parte dentro das condições que lhe são oferecidas. Aliás, muito mais do que podem. Casos como o homicídio da Vila Rica são fatos que só um método pode evitar: prevenção. Não há como policiais imaginarem como, quando e onde acontecerá o crime. Evitá-lo, portanto, é lenda. Preveni-lo, porém, é uma ação que demanda mais que reforço de efetivo ou armamento. É preciso trabalhar diretamente onde tudo acontece: na consciência.
Diz o ditado que prevenir é melhor que remediar. O problema é que a prevenção na segurança pública é um trabalho lento. De formiguinha, como dizem muitos. Transformar a consciência de potenciais criminosos envoltos em uma rede de drogas, miserabilidade e falta de perspectivas envolve uma série de medidas. É um trabalho plural que jamais surtirá efeitos com ações isoladas.
A dúvida que paira no ar é se a sociedade realmente quer essa mudança. Barbaridades acontecem diariamente e qual é a resposta? Conformismo e esperança. Só isso não basta. Uma cidade livre de crimes é impossível. É utópico. Por outro lado, quando o crime bate na porta e ganha proporções cada vez mais preocupantes, é preciso uma reação imediata sob pena de se perder para sempre o controle.
Desde janeiro, Carazinho teve seis homicídios. Nos últimos dez dias, foram dois. Em um dos casos, um jovem foi baleado fatalmente enquanto andava de moto. Isso sem contar os diversos registros que entopem a Delegacia de Polícia e a Brigada Militar. Até a Prefeitura foi invadida recentemente. É preciso, urgentemente, sacudir a sociedade para que acorde e perceba que algo está errado. Hoje, infelizmente, as pessoas de bem estão se omitindo pelo medo de serem alvos. Enquanto isso, a criminalidade cresce e a polícia, por mais esforço que faça, não dá conta de tanta demanda.
Talvez seminários e encontros possam ser alternativas. Por outro lado, o esforço exemplar de quem promove de nada adiantará se quem estiver sentado assistindo estiver focado mais em parecer preocupado com o tema do que efetivamente estar. Afinal, a aparência de ação é pior que não participar, pois além de não se preocupar, a pessoa mente para si e para os outros. Hoje, diante deste quadro, só resta uma opção: investir nas crianças.
Programas educacionais e de orientação nas escolas são as ferramentas que podem mudar essa realidade no futuro. Dar oportunidades e atenção a estas crianças é dever de uma sociedade que, aos poucos, vira refém de si mesma. Até quando ousaremos esperar? Quem sabe a criação de um Programa Municipal de Prevenção da Violência, com ações conjuntas, congregação de projetos em andamento e envolvimento direto das escolas e universidades, possa abrir as portas para esta mudança.
Enquanto isso, a sensação de medo permanece. Naquela madrugada, ouvi mais que o sinal da morte de alguém. Foi um tiro na consciência que cada um deveria levar. Os minutos após aquele estampido pareciam intermináveis. Nenhum barulho. Não havia respostas, muito menos reações. Foi no silêncio daquele ato que me pus a pensar sobre o que poderá nos esperar na próxima esquina ou logo ali na rua perto de casa.
Até voltou em minha mente um episódio ocorrido em 2001. Eu estava voltando a pé para casa quando, a duas quadras do destino, fui surpreendido por um jovem alto e forte que roubou meus tênis. Ele me levou até uma pracinha do bairro para que ninguém presenciasse o assalto. Foi duro passar em frente a minha casa sem poder reagir e com medo de que coisas piores acontecessem. É este temor impotente que devemos combater.
Hoje, somos vítimas da própria omissão. No futuro, talvez sejamos do sistema que deixamos tomar conta. Vencer o medo é difícil, mas viver com medo é muito pior. Hamlet, o personagem épico de Shakespeare, sofreu e passou a vida tentando vingar a morte do pai. Como ele, hoje nós estamos vivendo entre a loucura e a razão. Que, juntos, possamos evitar o caminho da vingança. É na atitude, no respeito e no enfrentamento do medo que acharemos a saída. O resto é silêncio.
Mesmo tarde demais, ela lembrou e correu contra o tempo
24 de março de 2010
A quinta-feira era mais um dia normal. Daqueles em que tudo se encaminha e nada de surpreendente acontece. O relógio marcava 18h55min. Estacionei o carro, abri a porta e olhei para ver se não havia deixado nada importante antes de sair, fechar a porta, acionar o alarme e entrar na universidade. Caminhei em passos calmos e tranquilos até que, não tão distante, uma moto apareceu no horizonte.
Estacionou perto da parada de ônibus. Era um casal. Ela desceu. Ambos tiraram o capacete. Conversa vai, conversa vem, eles se despediram. O homem botou o capacete, ligou a moto e preparou-se para sair. A jovem mulher ajeitou o caderno na mão esquerda, pulou o meio-fio e caminhou rumo ao corredor. Nesta hora, eu atravessei a rua com os olhos quase fechados diante da luz da moto em minha direção.
Entrei no mesmo corredor. De repente, ouvi o barulho da motocicleta saindo e se dissipando no ar em poucos segundos. Cinco metros à frente de mim, a mulher que recém desembarcou caminhava normalmente. De repente, ela parou. Ficou imóvel. Como em um clássico e antigo filme de romance, torceu o pescoço para trás em um movimento brusco. Nos olhos, o desespero da perda e a angústia pelo impossível.
Balançou a cabeça, olhou para o horizonte e engoliu a seco um grito de chamado. Caminhou por três ou quatro passos até iniciar uma corrida leve que se transformou em um pique de fuga. Continuei caminhando. Ela correu, passou por mim e seguiu rumo à parada de ônibus, de onde recém havia descido. Olhei para trás e a visualizei novamente imóvel. Olhava para o horizonte, em busca de algo. Instantes depois, ela levou a mão direita à cabeça baixa em tom de lamentação.
Não precisava dizer mais nada. Permaneci caminhando e logo deduzi: ela havia esquecido algo. O que poderia ser? Um documento importante, talvez. Quem sabe não era um pedido especial para o namorado. Poderia ser, ainda, um simples recado mais ou menos assim: “vai devagar, amor. A estrada é perigosa”. Ela havia tido um lapso de memória e, agora, era tarde demais. A moto havia partido, assim como seu coração.
Quantas vezes esquecemos as coisas? Tem gente que esquece propositalmente, mas aí é dissimulação total. Falo daquela perda inimaginável de memória seguida de uma recuperação súbita exatamente no momento em que não é mais possível reverter o erro cometido segundos antes. Alguns esquecem pela correria do dia a dia. Outros, pelo excesso de calmaria. Tem aqueles que ainda deixam de lembrar por falta de compromisso ou, simplesmente, porque não lhes era importante.
A verdade é que todo mundo esquece. Seja agora ou depois. Só fica guardado aquilo que realmente nos marca. Momentos que passamos por algo importante. Seja quando conquistamos, aprendemos, lamentamos, sofremos, perdoemos ou recebamos o perdão. Impreterivelmente, somente o que mexe mesmo com nossos brios, sentimentos, opiniões e modo de ser e agir é que não são esquecidos.
Infelizmente, este estigma está ficando para trás. Mais que esquecer coisas, fatos e momentos, as pessoas estão esquecendo o que realmente são. Um esquecimento quase subliminar, mas altamente perigoso. Hoje, esquece-se de dizer um “eu te amo” aos pais, de dar um “bom dia” ao colega de trabalho e até mesmo do manjado “saúde” quando alguém espirra. O ser humano está esquecendo o próximo.
A tal lei do “tô nem aí, pois isso não me afeta diretamente” é maligna. O egoísmo velado é regado até que a balança mude e estejamos nós no ponto mais fraco clamando por atenção. Só assim, no sofrimento, é que voltamos a nos lembrar. Por que é preciso a dor para ser feliz? Essa antítese poderia ser mudada naturalmente. Infelizmente, está fadada ao fracasso por simples esquecimento.
Não é à toa que o mundo esteja pedindo socorro das mais diversas formas. Que a natureza dê o troco, que a morte tenha sido banalizada e que o medo do desgaste esteja vencendo a coragem do crescimento. Precisamos aprender a não esquecer. Lembrar, urgentemente, mas sem rancor. É necessário dar e receber mais atenção. Em tudo e para todos. Só assim poderemos, enfim, esquecer os feitos desse egoísmo covarde que nos corrompe e destrói.
Caminhei até a sala pensando no que realmente aquela mulher havia esquecido. Seria simples? Talvez fosse algo que poderia esperar até o dia seguinte. Após presenciar aquele momento sublime, resolvi deixar de lado a tentativa improvável da adivinhação. Naquele momento, o esquecimento não era o mais importante. Afinal, ela havia lembrado e corrido atrás contra o tempo para mudar. Definitivamente, não há nada mais forte e necessário que uma lembrança, mesmo que pareça ser tarde demais.
A quinta-feira era mais um dia normal. Daqueles em que tudo se encaminha e nada de surpreendente acontece. O relógio marcava 18h55min. Estacionei o carro, abri a porta e olhei para ver se não havia deixado nada importante antes de sair, fechar a porta, acionar o alarme e entrar na universidade. Caminhei em passos calmos e tranquilos até que, não tão distante, uma moto apareceu no horizonte.
Estacionou perto da parada de ônibus. Era um casal. Ela desceu. Ambos tiraram o capacete. Conversa vai, conversa vem, eles se despediram. O homem botou o capacete, ligou a moto e preparou-se para sair. A jovem mulher ajeitou o caderno na mão esquerda, pulou o meio-fio e caminhou rumo ao corredor. Nesta hora, eu atravessei a rua com os olhos quase fechados diante da luz da moto em minha direção.
Entrei no mesmo corredor. De repente, ouvi o barulho da motocicleta saindo e se dissipando no ar em poucos segundos. Cinco metros à frente de mim, a mulher que recém desembarcou caminhava normalmente. De repente, ela parou. Ficou imóvel. Como em um clássico e antigo filme de romance, torceu o pescoço para trás em um movimento brusco. Nos olhos, o desespero da perda e a angústia pelo impossível.
Balançou a cabeça, olhou para o horizonte e engoliu a seco um grito de chamado. Caminhou por três ou quatro passos até iniciar uma corrida leve que se transformou em um pique de fuga. Continuei caminhando. Ela correu, passou por mim e seguiu rumo à parada de ônibus, de onde recém havia descido. Olhei para trás e a visualizei novamente imóvel. Olhava para o horizonte, em busca de algo. Instantes depois, ela levou a mão direita à cabeça baixa em tom de lamentação.
Não precisava dizer mais nada. Permaneci caminhando e logo deduzi: ela havia esquecido algo. O que poderia ser? Um documento importante, talvez. Quem sabe não era um pedido especial para o namorado. Poderia ser, ainda, um simples recado mais ou menos assim: “vai devagar, amor. A estrada é perigosa”. Ela havia tido um lapso de memória e, agora, era tarde demais. A moto havia partido, assim como seu coração.
Quantas vezes esquecemos as coisas? Tem gente que esquece propositalmente, mas aí é dissimulação total. Falo daquela perda inimaginável de memória seguida de uma recuperação súbita exatamente no momento em que não é mais possível reverter o erro cometido segundos antes. Alguns esquecem pela correria do dia a dia. Outros, pelo excesso de calmaria. Tem aqueles que ainda deixam de lembrar por falta de compromisso ou, simplesmente, porque não lhes era importante.
A verdade é que todo mundo esquece. Seja agora ou depois. Só fica guardado aquilo que realmente nos marca. Momentos que passamos por algo importante. Seja quando conquistamos, aprendemos, lamentamos, sofremos, perdoemos ou recebamos o perdão. Impreterivelmente, somente o que mexe mesmo com nossos brios, sentimentos, opiniões e modo de ser e agir é que não são esquecidos.
Infelizmente, este estigma está ficando para trás. Mais que esquecer coisas, fatos e momentos, as pessoas estão esquecendo o que realmente são. Um esquecimento quase subliminar, mas altamente perigoso. Hoje, esquece-se de dizer um “eu te amo” aos pais, de dar um “bom dia” ao colega de trabalho e até mesmo do manjado “saúde” quando alguém espirra. O ser humano está esquecendo o próximo.
A tal lei do “tô nem aí, pois isso não me afeta diretamente” é maligna. O egoísmo velado é regado até que a balança mude e estejamos nós no ponto mais fraco clamando por atenção. Só assim, no sofrimento, é que voltamos a nos lembrar. Por que é preciso a dor para ser feliz? Essa antítese poderia ser mudada naturalmente. Infelizmente, está fadada ao fracasso por simples esquecimento.
Não é à toa que o mundo esteja pedindo socorro das mais diversas formas. Que a natureza dê o troco, que a morte tenha sido banalizada e que o medo do desgaste esteja vencendo a coragem do crescimento. Precisamos aprender a não esquecer. Lembrar, urgentemente, mas sem rancor. É necessário dar e receber mais atenção. Em tudo e para todos. Só assim poderemos, enfim, esquecer os feitos desse egoísmo covarde que nos corrompe e destrói.
Caminhei até a sala pensando no que realmente aquela mulher havia esquecido. Seria simples? Talvez fosse algo que poderia esperar até o dia seguinte. Após presenciar aquele momento sublime, resolvi deixar de lado a tentativa improvável da adivinhação. Naquele momento, o esquecimento não era o mais importante. Afinal, ela havia lembrado e corrido atrás contra o tempo para mudar. Definitivamente, não há nada mais forte e necessário que uma lembrança, mesmo que pareça ser tarde demais.
Amor anônimo na Expodireto Cotrijal
22 de março de 2010
O papelzinho estava lá, dobrado cuidadosamente em frente ao monitor LCD preto com faixa cinza. O local era a cabine de imprensa do parque da Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque. Computadores disponíveis para repórteres de todas as mídias e, em especial, para um apaixonado. Eu estava lá apenas para baixar uma foto e enviar por e-mail. Encontrei naquela sala, porém, em rabiscos no papel, um casal em apuros e um coração partido.
Não havia ninguém no local. Escolhi aleatoriamente o computador e, de repente, me deparei com aquele pedaço de papel dobrado. Sem dono, sem rastros. Calmamente, abri as dobras caprichosamente feitas. Na folha timbrada de uma companhia química, 15 linhas escritas em caneta azul e uma letra tremida e impaciente. Não era feia, nem um garrancho. A emoção falava em cada letra desenhada.
A carta não tinha endereço e não citava nomes. Iniciava com um pedido de desculpas pelas mensagens enviadas até aquele momento. Prosseguia: “estou vivendo uma fase muito difícil em minha vida. Se algum dia fiz alguma coisa que possa ter magoado você, me perdoe”.
Mais adiante, a confissão: “estou separado de minha mulher. Estamos sofrendo muito. Só que nos amamos e estamos tentando consertar o que fizemos de errado”. O texto prossegue com um novo apelo: “Me perdoe. Assim poderemos até, quem sabe, ser amigos e eu poderei provar que não sou essa pessoa que está pensando”. Por fim, um agradecimento e um lembrete: “Obrigado. Deus é fiel”.
A carta terminava assim, sem assinatura nem endereço. Um rascunho que talvez tenha sido passado a limpo ou, simplesmente, abandonado na mesa. Uma desistência que deixou vestígios, como o drama daquele homem. É difícil interpretar o contexto de tudo isso, mas é possível imaginar conclusões para uma realidade inusitada e, no mínimo, complicada.
Possivelmente, aquele homem teria enfrentado uma crise conjugal e buscado a felicidade nos braços de outra. O arrependimento bateu e, enfim, ele partiu para a reconciliação. Preocupado, lançou-se desesperadamente para evitar a mágoa a quem lhe fez feliz: a outra. Após um tórrido romance, ele a propunha apenas amizade. Seria tarde demais? Aliás, seria justo agir assim?
Tudo não passa de suposição. Não há subterfúgios que garantam que tudo isso tenha acontecido. Mas há uma certeza: se virou carta, envolvia amor. À moda antiga, só o amor pode motivar a escrita de uma carta para pedir desculpas. Nos demais casos, a desculpa costuma ser verbal. No amor, a falta de coragem ou, hipoteticamente, o romantismo de antigamente, transformam o “pergaminho” em alternativa principal.
O que realmente aconteceu ninguém saberá, a não ser aquele homem. A história não ficou completa. As suposições só nos permitem imaginar. Será que esta carta chegou a seu esperado destino? Eis um mistério eterno. Publílio Siro, escritor latino da Roma antiga, disse certa vez que “as feridas do amor só podem ser curadas por aquele que as fez”. A tentativa foi feita ou, ao menos, arquitetada.
Tudo aconteceu em meio a uma feira gigante com mais de 168 mil visitantes e R$ 512 milhões em negócios. Para aquele homem, porém, pouco importava. O coração valia mais que qualquer coisa. Na coletiva, o presidente Nei César Mânica disse que a 11ª edição do evento conseguiu despertar mudanças culturais nas pessoas. Faltou mencionar as amorosas. Afinal, se for seguir o histórico impressionante da feira, o amor anônimo da Expodireto Cotrijal tem tudo para prosperar e crescer sem limites.
O papelzinho estava lá, dobrado cuidadosamente em frente ao monitor LCD preto com faixa cinza. O local era a cabine de imprensa do parque da Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque. Computadores disponíveis para repórteres de todas as mídias e, em especial, para um apaixonado. Eu estava lá apenas para baixar uma foto e enviar por e-mail. Encontrei naquela sala, porém, em rabiscos no papel, um casal em apuros e um coração partido.
Não havia ninguém no local. Escolhi aleatoriamente o computador e, de repente, me deparei com aquele pedaço de papel dobrado. Sem dono, sem rastros. Calmamente, abri as dobras caprichosamente feitas. Na folha timbrada de uma companhia química, 15 linhas escritas em caneta azul e uma letra tremida e impaciente. Não era feia, nem um garrancho. A emoção falava em cada letra desenhada.
A carta não tinha endereço e não citava nomes. Iniciava com um pedido de desculpas pelas mensagens enviadas até aquele momento. Prosseguia: “estou vivendo uma fase muito difícil em minha vida. Se algum dia fiz alguma coisa que possa ter magoado você, me perdoe”.
Mais adiante, a confissão: “estou separado de minha mulher. Estamos sofrendo muito. Só que nos amamos e estamos tentando consertar o que fizemos de errado”. O texto prossegue com um novo apelo: “Me perdoe. Assim poderemos até, quem sabe, ser amigos e eu poderei provar que não sou essa pessoa que está pensando”. Por fim, um agradecimento e um lembrete: “Obrigado. Deus é fiel”.
A carta terminava assim, sem assinatura nem endereço. Um rascunho que talvez tenha sido passado a limpo ou, simplesmente, abandonado na mesa. Uma desistência que deixou vestígios, como o drama daquele homem. É difícil interpretar o contexto de tudo isso, mas é possível imaginar conclusões para uma realidade inusitada e, no mínimo, complicada.
Possivelmente, aquele homem teria enfrentado uma crise conjugal e buscado a felicidade nos braços de outra. O arrependimento bateu e, enfim, ele partiu para a reconciliação. Preocupado, lançou-se desesperadamente para evitar a mágoa a quem lhe fez feliz: a outra. Após um tórrido romance, ele a propunha apenas amizade. Seria tarde demais? Aliás, seria justo agir assim?
Tudo não passa de suposição. Não há subterfúgios que garantam que tudo isso tenha acontecido. Mas há uma certeza: se virou carta, envolvia amor. À moda antiga, só o amor pode motivar a escrita de uma carta para pedir desculpas. Nos demais casos, a desculpa costuma ser verbal. No amor, a falta de coragem ou, hipoteticamente, o romantismo de antigamente, transformam o “pergaminho” em alternativa principal.
O que realmente aconteceu ninguém saberá, a não ser aquele homem. A história não ficou completa. As suposições só nos permitem imaginar. Será que esta carta chegou a seu esperado destino? Eis um mistério eterno. Publílio Siro, escritor latino da Roma antiga, disse certa vez que “as feridas do amor só podem ser curadas por aquele que as fez”. A tentativa foi feita ou, ao menos, arquitetada.
Tudo aconteceu em meio a uma feira gigante com mais de 168 mil visitantes e R$ 512 milhões em negócios. Para aquele homem, porém, pouco importava. O coração valia mais que qualquer coisa. Na coletiva, o presidente Nei César Mânica disse que a 11ª edição do evento conseguiu despertar mudanças culturais nas pessoas. Faltou mencionar as amorosas. Afinal, se for seguir o histórico impressionante da feira, o amor anônimo da Expodireto Cotrijal tem tudo para prosperar e crescer sem limites.
Até onde vai o coração da gente?
05 de março de 2010
Tenho, por hábito, ler muito. Mais que isso, reler. Sempre é bom contemplar novamente algo que nos fez pensar, refletir e crescer. Escrevi o texto que republico a seguir em março de 2007. Três anos depois, parece que pouco ou nada mudou. Tire suas conclusões. Até onde vai?
Era meia-noite. De repente, ouço palmas. Abro a cortina e a janela curioso para ver o que me espera do lado de fora da casa. Um homem. Jovem e sozinho. O que poderia querer aquela hora da noite? Pediu por meus pais e eu lhe disse que estavam dormindo. Pareceu desistir de falar, mas eu perguntei o que desejava. Foi então que ele falou sobre sua filhinha, que sofria por causa de adenóide e estava com o rosto roxo. Um caso urgente. Será? Disse-me que havia levado a menina ao hospital e, apesar de ela ter sido liberada pelos médicos, precisava de dez reais para comprar remédio. Não tinha dinheiro e garantiu-me que iria receber apenas na terça-feira. Também falou que era novo na cidade e que, ao chegar à casa de um tio, o único conhecido que tinha, este já estava dormindo e não pode lhe atender.
E agora? Confiar no sucesso teórico do SUS e no estoque de sua farmácia e acreditar que, se o caso fosse grave, a menina seria internada e teria todo o tratamento necessário? Ou, talvez, ficar sensível ao apelo de um pai, lembrar do drama da saúde pública brasileira e dar o dinheiro? Eu nunca tinha visto aquele homem na minha vida. Ele não estava desesperado, não tinha receita médica com o nome do remédio que sua filha precisava nem morava perto da minha casa. Por que viria até a minha distante residência, à meia-noite, pedir para que eu o ajudasse?
Logo, pensei: até onde vai o amor de um pai ou mãe pelo seu filho? Dia desses, um avô salvou seu neto da morte ao lutar no braço com uma sucuri. Há mais tempo, uma mãe que não sabia nadar mergulhou em um pequeno lago formado pela chuva que inundou São Paulo e resgatou seu filho. Provas de amor que talvez não se comparem a essa realidade, mas que deixaram meu coração com muitas dúvidas sobre o que me falava aquele homem.
Hoje, diferentemente dos chamados “velhos tempos”, o ceticismo virou uma obrigação. São tantos sequestros, assaltos, atos suspeitos ou pura malandragem em busca de sensibilidade e humanismo que abrir os olhos é pouco: é preciso abrir a cabeça também. Uma contradição maluca em um país cada vez mais sem caráter. É roubalheira na política, demagogia barata e uma luz no fim do poço, ao invés de túnel.
O refrão de uma música da banda Jota Quest lança a pergunta no ar: até onde vai o coração da gente? Ser bom ou ser bobo, eis a questão. Amar e acreditar ou sofrer e lamentar? Muita coisa mudou. Tanto que eu falava com aquele homem desconhecido atrás de um muro com grades e uma janela cheia de ferros ao redor. Desconfiava, me sensibilizava, mas temia. Sua postura e seu jeito tão despreocupado na hora de falar do drama que vivia fizeram meu ceticismo falar mais alto.
O homem saiu caminhando devagar, olhando para os lados e aparentemente frustrado. A criança, se é que existia, parecia não ser importante para ele naquele momento. Ao ouvir minha negativa, ele me disse: “tudo bem, vou ver se consigo arrumar alguma coisa por aí”. Do meu lado da grade, um pequeno sentimento de culpa. Do outro lado, um fracasso com jeito de “está bem, eu nem precisava mesmo”. Fechei a janela e a cortina.
Filósofos dizem que a intuição é a voz do coração. E até onde vai o coração da gente? Não somos mais nós mesmos, mas sim quem podemos ser. É tanta injustiça, impunidade e desrespeito vindos de todos os lugares que acreditar prontamente virou atestado de trouxa. Confiar e ser de confiança no Brasil virou troféu para ser exibido na parede da sala para todo mundo ver e, claro, não crer. A crise é tanta que desconfiamos até da nossa própria sombra. Será que, a exemplo daquele homem, devemos bater palmas?
Tenho, por hábito, ler muito. Mais que isso, reler. Sempre é bom contemplar novamente algo que nos fez pensar, refletir e crescer. Escrevi o texto que republico a seguir em março de 2007. Três anos depois, parece que pouco ou nada mudou. Tire suas conclusões. Até onde vai?
Era meia-noite. De repente, ouço palmas. Abro a cortina e a janela curioso para ver o que me espera do lado de fora da casa. Um homem. Jovem e sozinho. O que poderia querer aquela hora da noite? Pediu por meus pais e eu lhe disse que estavam dormindo. Pareceu desistir de falar, mas eu perguntei o que desejava. Foi então que ele falou sobre sua filhinha, que sofria por causa de adenóide e estava com o rosto roxo. Um caso urgente. Será? Disse-me que havia levado a menina ao hospital e, apesar de ela ter sido liberada pelos médicos, precisava de dez reais para comprar remédio. Não tinha dinheiro e garantiu-me que iria receber apenas na terça-feira. Também falou que era novo na cidade e que, ao chegar à casa de um tio, o único conhecido que tinha, este já estava dormindo e não pode lhe atender.
E agora? Confiar no sucesso teórico do SUS e no estoque de sua farmácia e acreditar que, se o caso fosse grave, a menina seria internada e teria todo o tratamento necessário? Ou, talvez, ficar sensível ao apelo de um pai, lembrar do drama da saúde pública brasileira e dar o dinheiro? Eu nunca tinha visto aquele homem na minha vida. Ele não estava desesperado, não tinha receita médica com o nome do remédio que sua filha precisava nem morava perto da minha casa. Por que viria até a minha distante residência, à meia-noite, pedir para que eu o ajudasse?
Logo, pensei: até onde vai o amor de um pai ou mãe pelo seu filho? Dia desses, um avô salvou seu neto da morte ao lutar no braço com uma sucuri. Há mais tempo, uma mãe que não sabia nadar mergulhou em um pequeno lago formado pela chuva que inundou São Paulo e resgatou seu filho. Provas de amor que talvez não se comparem a essa realidade, mas que deixaram meu coração com muitas dúvidas sobre o que me falava aquele homem.
Hoje, diferentemente dos chamados “velhos tempos”, o ceticismo virou uma obrigação. São tantos sequestros, assaltos, atos suspeitos ou pura malandragem em busca de sensibilidade e humanismo que abrir os olhos é pouco: é preciso abrir a cabeça também. Uma contradição maluca em um país cada vez mais sem caráter. É roubalheira na política, demagogia barata e uma luz no fim do poço, ao invés de túnel.
O refrão de uma música da banda Jota Quest lança a pergunta no ar: até onde vai o coração da gente? Ser bom ou ser bobo, eis a questão. Amar e acreditar ou sofrer e lamentar? Muita coisa mudou. Tanto que eu falava com aquele homem desconhecido atrás de um muro com grades e uma janela cheia de ferros ao redor. Desconfiava, me sensibilizava, mas temia. Sua postura e seu jeito tão despreocupado na hora de falar do drama que vivia fizeram meu ceticismo falar mais alto.
O homem saiu caminhando devagar, olhando para os lados e aparentemente frustrado. A criança, se é que existia, parecia não ser importante para ele naquele momento. Ao ouvir minha negativa, ele me disse: “tudo bem, vou ver se consigo arrumar alguma coisa por aí”. Do meu lado da grade, um pequeno sentimento de culpa. Do outro lado, um fracasso com jeito de “está bem, eu nem precisava mesmo”. Fechei a janela e a cortina.
Filósofos dizem que a intuição é a voz do coração. E até onde vai o coração da gente? Não somos mais nós mesmos, mas sim quem podemos ser. É tanta injustiça, impunidade e desrespeito vindos de todos os lugares que acreditar prontamente virou atestado de trouxa. Confiar e ser de confiança no Brasil virou troféu para ser exibido na parede da sala para todo mundo ver e, claro, não crer. A crise é tanta que desconfiamos até da nossa própria sombra. Será que, a exemplo daquele homem, devemos bater palmas?
O cinema ensina que sempre se pode recomeçar
22 de fevereiro de 2010
O cinema é cultura e aprendizado, definitivamente. No sábado, vi o desenho animado UP – Altas Aventuras. Uma inocente historia de um menino que busca um sonho e o realiza quase aos 80 anos, quando todos, e até mesmo ele, duvidavam que seria possível. Dizem que o desenho animado é apenas diversão, porém, ele pode ser sim uma lição de vida. A singeleza de um conto que faz pensar que pode se ir muito mais além quando se conclui que já é o bastante.
Carl Fredricksen é um vendedor de balões. Aos 78 anos, ele está prestes a perder a casa em que sempre viveu com sua esposa, a falecida Ellie. O terreno onde a casa fica localizada interessa a um empresário, que deseja construir no local um edifício. Após um incidente em que acerta um homem com sua bengala, Carl é considerado uma ameaça pública e forçado a ser internado em um asilo. Para evitar que isto aconteça, ele enche milhares de balões em sua casa, fazendo com que ela levante vôo.
O objetivo de Carl é viajar para uma floresta na América do Sul, um local onde ele e Ellie sempre desejaram morar. Para isso, ele conta com a inesperada ajuda de um persistente explorador da natureza de apenas oito anos de idade, chamado Russell. Olhando assim, parece mais um daqueles filmes de entretenimento, porém, há cenas e momentos que o espectador repensa a correria, os desafios e a própria vida.
Carl e Ellie sempre sonharam morar próximo a uma cachoeira na América do Sul. Ela tinha até um álbum com a inscrição “Coisa que eu quero fazer” para registrar os momentos quando o sonho se tornasse realidade. A morte de Ellie sem concretizar o desejo parece fazer com que tudo seja impossível. De repente, pressionado pelo destino, Carl decide arriscar e alcançar o que deixou para trás.
É engraçado ver a casinha deles subindo pendurada a milhares de balões coloridos. Quando Carl chega perto do sonho, há uma cena marcante. Os balões começam a murchar e a casa não levanta mais vôo. Então, ele começa a jogar fora objetos, móveis, porta-retratos e muitos itens de sua historia para poder subir novamente. Em poucos segundos, joga fora o seu passado por um futuro diferente. Despede-se da vida que construiu para atingir o que sempre sonhou.
A cena é emocionante e, ao mesmo tempo, um perfeito momento de auto-reflexão para quem vive preso ao passado, às dores, às perdas e até às conquistas hoje registradas apenas por troféus empoeirados e esquecidos no tempo. Ensina a lição que sempre é possível alcançar os sonhos, mas que isso é impossível se não se desprender do passado. Para subir, é preciso querer, ousar e, por que não dizer, admitir as perdas.
Talvez as crianças que assistam ao filme não percebam tamanha magnitude nos traços engraçados e nos lindos gráficos desenhados via computador. Somente irão rir, se divertir e esquecer. Para quem olhar com atenção, porém, UP – Altas Aventuras é um recomeço em que o tempo não é limite. Afinal, sempre há tempo para recomeçar e, como disse certa vez o eterno piloto Ayrton Senna, que voava sem limites pelas pistas, “não podemos fazer um novo começo, mas podemos recomeçar e fazer um novo fim”.
O cinema é cultura e aprendizado, definitivamente. No sábado, vi o desenho animado UP – Altas Aventuras. Uma inocente historia de um menino que busca um sonho e o realiza quase aos 80 anos, quando todos, e até mesmo ele, duvidavam que seria possível. Dizem que o desenho animado é apenas diversão, porém, ele pode ser sim uma lição de vida. A singeleza de um conto que faz pensar que pode se ir muito mais além quando se conclui que já é o bastante.
Carl Fredricksen é um vendedor de balões. Aos 78 anos, ele está prestes a perder a casa em que sempre viveu com sua esposa, a falecida Ellie. O terreno onde a casa fica localizada interessa a um empresário, que deseja construir no local um edifício. Após um incidente em que acerta um homem com sua bengala, Carl é considerado uma ameaça pública e forçado a ser internado em um asilo. Para evitar que isto aconteça, ele enche milhares de balões em sua casa, fazendo com que ela levante vôo.
O objetivo de Carl é viajar para uma floresta na América do Sul, um local onde ele e Ellie sempre desejaram morar. Para isso, ele conta com a inesperada ajuda de um persistente explorador da natureza de apenas oito anos de idade, chamado Russell. Olhando assim, parece mais um daqueles filmes de entretenimento, porém, há cenas e momentos que o espectador repensa a correria, os desafios e a própria vida.
Carl e Ellie sempre sonharam morar próximo a uma cachoeira na América do Sul. Ela tinha até um álbum com a inscrição “Coisa que eu quero fazer” para registrar os momentos quando o sonho se tornasse realidade. A morte de Ellie sem concretizar o desejo parece fazer com que tudo seja impossível. De repente, pressionado pelo destino, Carl decide arriscar e alcançar o que deixou para trás.
É engraçado ver a casinha deles subindo pendurada a milhares de balões coloridos. Quando Carl chega perto do sonho, há uma cena marcante. Os balões começam a murchar e a casa não levanta mais vôo. Então, ele começa a jogar fora objetos, móveis, porta-retratos e muitos itens de sua historia para poder subir novamente. Em poucos segundos, joga fora o seu passado por um futuro diferente. Despede-se da vida que construiu para atingir o que sempre sonhou.
A cena é emocionante e, ao mesmo tempo, um perfeito momento de auto-reflexão para quem vive preso ao passado, às dores, às perdas e até às conquistas hoje registradas apenas por troféus empoeirados e esquecidos no tempo. Ensina a lição que sempre é possível alcançar os sonhos, mas que isso é impossível se não se desprender do passado. Para subir, é preciso querer, ousar e, por que não dizer, admitir as perdas.
Talvez as crianças que assistam ao filme não percebam tamanha magnitude nos traços engraçados e nos lindos gráficos desenhados via computador. Somente irão rir, se divertir e esquecer. Para quem olhar com atenção, porém, UP – Altas Aventuras é um recomeço em que o tempo não é limite. Afinal, sempre há tempo para recomeçar e, como disse certa vez o eterno piloto Ayrton Senna, que voava sem limites pelas pistas, “não podemos fazer um novo começo, mas podemos recomeçar e fazer um novo fim”.
“Quando se ama alguém, é duro ver a pessoa sofrer”
18 de fevereiro de 2010
A frase foi dita ao vivo, na televisão britânica, pelo jornalista Ray Gosling. Aos 70 anos e homossexual assumido, ele revelou ter sufocado seu parceiro em estado terminal com um travesseiro para abreviar o sofrimento. A confissão reavivou o debate na Grã-Bretanha sobre a eutanásia, procedimento considerado ilegal no país. Quem lê, geralmente tem opinião formada sobre tudo ou quase tudo. Uma coisa, porém, é certa: mesmo discordando, é praticamente impossível não se comover com a dor.
O parceiro de Gosling tinha AIDS, estava em estado terminal e sofria com dores insuportáveis. Ambos tinham um pacto para que um ajudasse o outro a morrer caso as dores decorrentes da doença aumentassem de forma extrema. O jornalista disse que era contra a eutanásia, mas após saber dos médicos que nada mais poderia ser feito, resolveu agir. “Quando se ama alguém, é duro ver a pessoa sofrer”, desabafou.
A eutanásia sempre gerou polêmica. Para muitos, tirar a vida de uma pessoa, mesmo para aliviar a dor, é semelhante a um homicídio. Afinal, a morte seria antecipada através da ação de alguém. Outros, porém, acreditam que não há problemas em abreviar o sofrimento de quem já está condenado a morrer. Pensam, inclusive, que amenizar a sensação do paciente é uma prova de amor.
Temas como este, assim como pena de morte e aborto, sempre vão dividir opiniões. São assuntos que colocam à prova o respeito à vida e, principalmente, ao direito de decidir pela vida alheia. Uma liberdade que acaba invadindo a própria liberdade de cada um fazer o seu destino. Muitas vezes, o paciente pede para ter a vida abreviada, porém, a lei veta que alguém o ajude a morrer. O dilema é imenso, tanto para quem sofre com a doença como para quem vê tudo e nada pode fazer.
Diz um ditado que não se pode julgar nenhum ato se não nos colocarmos no lugar da pessoa que o praticou. O drama do jornalista que tirou a vida de quem amava, mesmo sendo historicamente contra a eutanásia, mostra o quanto o sentimento humano pode, em alguns casos, sobressair-se à razão. São os chamados mistérios inexplicáveis que cercam a vida . Uma incompreensão amplamente pesquisada e discutida, mas jamais resolvida. Afinal, ser imprevisível é uma das características que jamais poderá ser retirada do comportamento humano.
A polícia do condado de Nottinghamshire anunciou que investigará as declarações. “Não me arrependo. Fiz o correto”, declarou o britânico em frente às câmeras. Ontem, Gosling foi preso. Pela legislação da Grã-Bretanha, ajudar alguém a morrer pode render uma pena de até 14 anos de cadeia, mas os tribunais do país têm evitado condenar os acusados nesses casos. O motivo seria o fato de o autor já ter sofrido com a morte da pessoa que ama. Nessas horas, a própria Justiça faz jus ao símbolo da balança. É possível julgar a dor de alguém?
Independentemente da polêmica que a situação gera, a verdade é que a vida apresenta situações boas e ruins para todos. Momentos que são difíceis de aceitar, mas que por algum sentido é necessário que por aquilo passemos e, claro, superemos. Ninguém gosta de sofrer, mas a maior certeza da vida é, sim, a morte. Portanto, só nos resta seguir a receita quase utópica da escritora Kathleen Norris: “a vida é mais simples do que a gente pensa; basta aceitar o impossível, dispensar o indispensável e suportar o intolerável”.
A frase foi dita ao vivo, na televisão britânica, pelo jornalista Ray Gosling. Aos 70 anos e homossexual assumido, ele revelou ter sufocado seu parceiro em estado terminal com um travesseiro para abreviar o sofrimento. A confissão reavivou o debate na Grã-Bretanha sobre a eutanásia, procedimento considerado ilegal no país. Quem lê, geralmente tem opinião formada sobre tudo ou quase tudo. Uma coisa, porém, é certa: mesmo discordando, é praticamente impossível não se comover com a dor.
O parceiro de Gosling tinha AIDS, estava em estado terminal e sofria com dores insuportáveis. Ambos tinham um pacto para que um ajudasse o outro a morrer caso as dores decorrentes da doença aumentassem de forma extrema. O jornalista disse que era contra a eutanásia, mas após saber dos médicos que nada mais poderia ser feito, resolveu agir. “Quando se ama alguém, é duro ver a pessoa sofrer”, desabafou.
A eutanásia sempre gerou polêmica. Para muitos, tirar a vida de uma pessoa, mesmo para aliviar a dor, é semelhante a um homicídio. Afinal, a morte seria antecipada através da ação de alguém. Outros, porém, acreditam que não há problemas em abreviar o sofrimento de quem já está condenado a morrer. Pensam, inclusive, que amenizar a sensação do paciente é uma prova de amor.
Temas como este, assim como pena de morte e aborto, sempre vão dividir opiniões. São assuntos que colocam à prova o respeito à vida e, principalmente, ao direito de decidir pela vida alheia. Uma liberdade que acaba invadindo a própria liberdade de cada um fazer o seu destino. Muitas vezes, o paciente pede para ter a vida abreviada, porém, a lei veta que alguém o ajude a morrer. O dilema é imenso, tanto para quem sofre com a doença como para quem vê tudo e nada pode fazer.
Diz um ditado que não se pode julgar nenhum ato se não nos colocarmos no lugar da pessoa que o praticou. O drama do jornalista que tirou a vida de quem amava, mesmo sendo historicamente contra a eutanásia, mostra o quanto o sentimento humano pode, em alguns casos, sobressair-se à razão. São os chamados mistérios inexplicáveis que cercam a vida . Uma incompreensão amplamente pesquisada e discutida, mas jamais resolvida. Afinal, ser imprevisível é uma das características que jamais poderá ser retirada do comportamento humano.
A polícia do condado de Nottinghamshire anunciou que investigará as declarações. “Não me arrependo. Fiz o correto”, declarou o britânico em frente às câmeras. Ontem, Gosling foi preso. Pela legislação da Grã-Bretanha, ajudar alguém a morrer pode render uma pena de até 14 anos de cadeia, mas os tribunais do país têm evitado condenar os acusados nesses casos. O motivo seria o fato de o autor já ter sofrido com a morte da pessoa que ama. Nessas horas, a própria Justiça faz jus ao símbolo da balança. É possível julgar a dor de alguém?
Independentemente da polêmica que a situação gera, a verdade é que a vida apresenta situações boas e ruins para todos. Momentos que são difíceis de aceitar, mas que por algum sentido é necessário que por aquilo passemos e, claro, superemos. Ninguém gosta de sofrer, mas a maior certeza da vida é, sim, a morte. Portanto, só nos resta seguir a receita quase utópica da escritora Kathleen Norris: “a vida é mais simples do que a gente pensa; basta aceitar o impossível, dispensar o indispensável e suportar o intolerável”.
Em um momento, vive-se uma vida
15 de fevereiro de 2010
Na vida, nada é mais passageiro que o momento. É ali, naquele instante, que o sublime se revela inesquecível. Não há nada mais que bons e maus momentos em uma vida. Tristeza e felicidade são apenas estágios do grande responsável pelos nossos sentimentos de alegria, amor, ódio, dor, desprezo ou orgulho: o momento. Nada acontece fora dele, mas tudo tem a ver com esta fase ínfima para muitos, eterna para outros.
Os momentos são o reflexo de toda a evolução. Os álbuns de fotos são exemplos disso. Neles, vemos o quanto passou o tempo, tudo que aprendemos e os desafios que tivemos até estarmos hoje, enfim, em mais um momento. O problema das recordações fotográficas é que elas ocultam ocasiões que foram fundamentais para sermos o que hoje somos: os momentos de tristeza, decepção, arrependimento, entre outros.
A dor não é registrada nas fotos. Pelo contrário, ela se manifesta diretamente no coração. Talvez seja essa a principal diferença que a faz se tornar, para muitos, insuperável. Afinal, apesar de presentes eternamente na memória, os momentos felizes são mais passageiros que os de dor. Uma vitória motiva a outra. Na derrota, porém, o desafio de recomeçar só faz dar a volta por cima quem realmente é um vencedor.
O momento é o ápice de tudo. Naquela hora, o mundo todo parece parar para aquela sensação se manifestar de forma solitária e radiante em nossa mente. Seja o gol no jogo decisivo, a coragem na hora certa, a redenção depois de uma trajetória de perseverança ou simplesmente a derrota no sonho tão arduamente batalhado. Seja boa ou ruim, a verdade é que o futuro de cada um depende de como se curte cada momento.
Muitos que só o sabem fazer na hora da felicidade. Outros, também na tristeza. O problema é que a vida é um isto de momentos extremos, muitas vezes até com picos gigantescos em uma simples volta no ponteiro do relógio. O momento não se mede pelo tempo, mas pela forma como cada um o absorve. Por isso, curtir o momento é mais que se deleitar apenas em horas alegres. É fazer daquele instante um ponto de partida para recomeçar, independentemente de que reação aquilo vai provocar.
Um dos clássicos do cinema mundial, o filme “Perfume de Mulher” é uma lição de vida. A interpretação de Al Pacino é uma obra para ser eternamente apreciada. Em uma das cenas clássicas, uma linda jovem loira aguarda a chegada do namorado. Em passos rápidos, o personagem cego interpretado por Al Pacino se aproxima e a tira para dançar. Ela diz que o namorado está quase chegando. Ele a encara e reitera o convite: “em um momento, vive-se uma vida”.
As palavras tão simples guardam um sentido amplo e magnânimo. Resumem em exatamente um momento o quanto a vida pode até ser longa, mas nunca deixará de ser um conjunto quase inacabável de momentos. Em um momento, vive-se, perde-se, sonha-se, chora-se, vibra-se, lamenta-se, conquista-se, sente-se, muda-se, aprende-se e vive-se, intensamente.
O escritor norte-americano Oliver Wendell Holmes foi categórico: “a perspicácia de um momento às vezes vale a experiência de uma vida”. Por isso, se alguém o chamar para o que for, seja pessoalmente ou por telefone, e você pedir que espere um momento, apenas lembre-se: ali pode estar o exato, insubstituível e talvez inesquecível momento que pode mudar o destino da sua vida.
Na vida, nada é mais passageiro que o momento. É ali, naquele instante, que o sublime se revela inesquecível. Não há nada mais que bons e maus momentos em uma vida. Tristeza e felicidade são apenas estágios do grande responsável pelos nossos sentimentos de alegria, amor, ódio, dor, desprezo ou orgulho: o momento. Nada acontece fora dele, mas tudo tem a ver com esta fase ínfima para muitos, eterna para outros.
Os momentos são o reflexo de toda a evolução. Os álbuns de fotos são exemplos disso. Neles, vemos o quanto passou o tempo, tudo que aprendemos e os desafios que tivemos até estarmos hoje, enfim, em mais um momento. O problema das recordações fotográficas é que elas ocultam ocasiões que foram fundamentais para sermos o que hoje somos: os momentos de tristeza, decepção, arrependimento, entre outros.
A dor não é registrada nas fotos. Pelo contrário, ela se manifesta diretamente no coração. Talvez seja essa a principal diferença que a faz se tornar, para muitos, insuperável. Afinal, apesar de presentes eternamente na memória, os momentos felizes são mais passageiros que os de dor. Uma vitória motiva a outra. Na derrota, porém, o desafio de recomeçar só faz dar a volta por cima quem realmente é um vencedor.
O momento é o ápice de tudo. Naquela hora, o mundo todo parece parar para aquela sensação se manifestar de forma solitária e radiante em nossa mente. Seja o gol no jogo decisivo, a coragem na hora certa, a redenção depois de uma trajetória de perseverança ou simplesmente a derrota no sonho tão arduamente batalhado. Seja boa ou ruim, a verdade é que o futuro de cada um depende de como se curte cada momento.
Muitos que só o sabem fazer na hora da felicidade. Outros, também na tristeza. O problema é que a vida é um isto de momentos extremos, muitas vezes até com picos gigantescos em uma simples volta no ponteiro do relógio. O momento não se mede pelo tempo, mas pela forma como cada um o absorve. Por isso, curtir o momento é mais que se deleitar apenas em horas alegres. É fazer daquele instante um ponto de partida para recomeçar, independentemente de que reação aquilo vai provocar.
Um dos clássicos do cinema mundial, o filme “Perfume de Mulher” é uma lição de vida. A interpretação de Al Pacino é uma obra para ser eternamente apreciada. Em uma das cenas clássicas, uma linda jovem loira aguarda a chegada do namorado. Em passos rápidos, o personagem cego interpretado por Al Pacino se aproxima e a tira para dançar. Ela diz que o namorado está quase chegando. Ele a encara e reitera o convite: “em um momento, vive-se uma vida”.
As palavras tão simples guardam um sentido amplo e magnânimo. Resumem em exatamente um momento o quanto a vida pode até ser longa, mas nunca deixará de ser um conjunto quase inacabável de momentos. Em um momento, vive-se, perde-se, sonha-se, chora-se, vibra-se, lamenta-se, conquista-se, sente-se, muda-se, aprende-se e vive-se, intensamente.
O escritor norte-americano Oliver Wendell Holmes foi categórico: “a perspicácia de um momento às vezes vale a experiência de uma vida”. Por isso, se alguém o chamar para o que for, seja pessoalmente ou por telefone, e você pedir que espere um momento, apenas lembre-se: ali pode estar o exato, insubstituível e talvez inesquecível momento que pode mudar o destino da sua vida.
As maiores lições de vida são aprendidas na desgraça
19 de janeiro de 2010
As maiores lições de vida são aprendidas na desgraça. A frase é de autor desconhecido, mas reflete a franca realidade do mundo. O ditado costuma aparecer quando alguém sofreu, mas superou. A tragédia no Haiti, porém, nos mostrou um novo sentido para uma frase usada costumeiramente para se queixar. O resgate de sobreviventes após mais de quatro dias soterrados é a prova que as lições de vida não são apenas para quem sofre na pele a dor de uma decepção ou tristeza.
As cenas vistas na televisão são impressionantes. De repente, um grito é ouvido do nada. Instantes depois, dezenas de pessoas ficam em silêncio sob os escombros à espera de um novo chamado. Ele vem e traz junto esperança de um renascimento. A imagem mostrada pela TV Globo despertou em milhões de pessoas a sensação de que acreditar vale a pena quando se realmente tem vontade de uma coisa.
A enfermeira resgatada dos escombros no Haiti só não tinha o rosto soterrado. Respirava sabe se lá como. Quando o soldado a tocou, apertou fortemente a mão dele e sorriu. Muitos, talvez, chorariam ao sair daquele inferno maldito. A mulher, porém, apenas deu um sorriso, acenou com a mão e respirou aliviada. Acabava ali um dos vários dramas e lições que o Haiti, apesar de tudo que aconteceu, ensinou o mundo.
Um dia depois, até mesmo uma criança com poucos meses de vida foi salva do soterramento mais de 70 horas após o país ruir. De onde será que vem essa força? Não pode ser apenas o desejo de viver. Nessas horas, certamente há algo a mais que faz o ser humano se agarrar a unhas e dentes naquilo que o move sempre: esperança. Essa palavrinha é, sem dúvida, o combustível que faz cada um ir até o limite.
A situação no Haiti é péssima. Há corpos nas ruas, pedras para todos os lados, pessoas implorando por comida e água, brigas, gritos, choros e desesperos imensos. O mundo se solidariza com a tragédia, mas a insegurança é tamanha que o tempo ganha outro sentido. A população não pensa no amanhã, como muitos. O pensamento não consegue ir tão longe assim. Nunca as horas, minutos e segundos foram tão esperados e valorizados.
Apesar de todo esse drama, a esperança de recomeçar e a luta pela vida são exemplos que merecem ser levados aos quatro cantos do planeta. A sociedade se mobiliza na desgraça e o Haiti é uma prova disso. Por que, então, no dia a dia de tantos problemas, violência, degradação ambiental e caos não há a mesma sensibilidade? Os seres humanos precisam sentir e ver a desgraça ao extremo. Uma sociedade masoquista que ainda não aprendeu que o melhor da dor é evitá-la.
Sempre há muito que aprender. A vida é assim, com erros e acertos. A coragem daquela enfermeira, porém, merece uma atenção especial. A vontade de viver daquela mulher é um exemplo para quem tanto reclama. Um contraste para quem só lamenta e nada faz. O Haiti é um espelho da humanidade de hoje em muitas outras áreas. Basta olhar, ver e agir. Só assim, lutando por momentos melhores é que poderemos enfim compreender porque as maiores lições de vida são aprendidas na desgraça.
As maiores lições de vida são aprendidas na desgraça. A frase é de autor desconhecido, mas reflete a franca realidade do mundo. O ditado costuma aparecer quando alguém sofreu, mas superou. A tragédia no Haiti, porém, nos mostrou um novo sentido para uma frase usada costumeiramente para se queixar. O resgate de sobreviventes após mais de quatro dias soterrados é a prova que as lições de vida não são apenas para quem sofre na pele a dor de uma decepção ou tristeza.
As cenas vistas na televisão são impressionantes. De repente, um grito é ouvido do nada. Instantes depois, dezenas de pessoas ficam em silêncio sob os escombros à espera de um novo chamado. Ele vem e traz junto esperança de um renascimento. A imagem mostrada pela TV Globo despertou em milhões de pessoas a sensação de que acreditar vale a pena quando se realmente tem vontade de uma coisa.
A enfermeira resgatada dos escombros no Haiti só não tinha o rosto soterrado. Respirava sabe se lá como. Quando o soldado a tocou, apertou fortemente a mão dele e sorriu. Muitos, talvez, chorariam ao sair daquele inferno maldito. A mulher, porém, apenas deu um sorriso, acenou com a mão e respirou aliviada. Acabava ali um dos vários dramas e lições que o Haiti, apesar de tudo que aconteceu, ensinou o mundo.
Um dia depois, até mesmo uma criança com poucos meses de vida foi salva do soterramento mais de 70 horas após o país ruir. De onde será que vem essa força? Não pode ser apenas o desejo de viver. Nessas horas, certamente há algo a mais que faz o ser humano se agarrar a unhas e dentes naquilo que o move sempre: esperança. Essa palavrinha é, sem dúvida, o combustível que faz cada um ir até o limite.
A situação no Haiti é péssima. Há corpos nas ruas, pedras para todos os lados, pessoas implorando por comida e água, brigas, gritos, choros e desesperos imensos. O mundo se solidariza com a tragédia, mas a insegurança é tamanha que o tempo ganha outro sentido. A população não pensa no amanhã, como muitos. O pensamento não consegue ir tão longe assim. Nunca as horas, minutos e segundos foram tão esperados e valorizados.
Apesar de todo esse drama, a esperança de recomeçar e a luta pela vida são exemplos que merecem ser levados aos quatro cantos do planeta. A sociedade se mobiliza na desgraça e o Haiti é uma prova disso. Por que, então, no dia a dia de tantos problemas, violência, degradação ambiental e caos não há a mesma sensibilidade? Os seres humanos precisam sentir e ver a desgraça ao extremo. Uma sociedade masoquista que ainda não aprendeu que o melhor da dor é evitá-la.
Sempre há muito que aprender. A vida é assim, com erros e acertos. A coragem daquela enfermeira, porém, merece uma atenção especial. A vontade de viver daquela mulher é um exemplo para quem tanto reclama. Um contraste para quem só lamenta e nada faz. O Haiti é um espelho da humanidade de hoje em muitas outras áreas. Basta olhar, ver e agir. Só assim, lutando por momentos melhores é que poderemos enfim compreender porque as maiores lições de vida são aprendidas na desgraça.
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