16 de jan. de 2011

Será o "quase" pior que o "nada"?

23 de outuro de 2009

O salão estava cheio. Mais de 300 pessoas aguardavam o grande momento. O prêmio principal estava no centro do palco e, em cada mesa, a esperança de marcar para sempre aquela noite fria de primavera. Diz o ditado: "tem gente que tem sorte". O resultado, porém, revelou o quanto a sorte demais pode ser um verdadeiro azar.

O bingo começou em clima de descontração. A cada número anunciado, risadas de um lado e brincadeiras do outro. Aos poucos, as dezenas foram se apresentando e o silêncio foi ficando maior, fruto da angústia da espera. A cartela tinha apenas 15 números e o prêmio principal só sairia para quem a completasse e gritasse com entusiasmo a palavra que dá nome ao jogo.

O tempo foi passando e quando a bolinha de número 30 saiu do globo, Onofre teve a certeza que o prêmio seria dele. Assinalou com caneta azul a 14ª dezena e sorriu com o canto dos lábios. Faltava apenas uma marcação para levar o tão sonhado automóvel. Um sonho de criança que estava a um anúncio da mesa central.

Onofre sempre foi considerado pelos amigos um grande azarado quando o assunto era jogo. O fracasso o acompanhava desde os tempos de escola, quando a professora sorteava um pirulito entre os alunos. Ele cresceu e começou a perder em rifas e concursos simples. O auge veio na sequência de derrotas na Mega-Sena: 22 anos de tentativas em vão. No máximo, três dezenas acertadas no longínquo ano de 1994.

Agora, tudo parecia diferente. Estava chegando o momento de mudar tudo, tirar aquele azar desgraçado e sorrir ao receber o tão cobiçado prêmio. Faltava apenas um número. Nada poderia tirar a glória de suas mãos. Era como o último cobrador de pênalti na decisão da Copa do Mundo tendo pela frente o goleiro de joelhos e o gol praticamente aberto para a conquista inédita.

O globo girou, a bolinha foi presa na marca e retirada pelas mãos finas e delicadas de uma linda mulher loira de olhos azuis, cabelos lisos e unhas caprichosamente pintadas com esmalte verde. Ela repassou o pequeno objeto ao locutor. Na cartela, faltava apenas o número 23. A voz bradou em alto e bom tom:

- Viiiiinteeeeeee.......eeeeeee.....quatro!

As pernas tremeram, o coração bateu mais forte e o suor tomou conta do corpo. Faltou pouco, muito pouco. Veio a rodada seguinte. A cena se repetiu e a bolinha chegou ao apresentador, que sentenciou:

- Viiiiinteeeeeee.......eeeeeee.....um!

Uhhh! O grito foi como o da torcida apaixonada no estádio lotado quando o centroavante cabeceia no ângulo e o goleiro do time adversário defende em uma ponte espetacular, espalmando para escanteio. Sorte ou azar? A cartilha recomendava paciência e Onofre não hesitou. A possibilidade de vencer ainda era grande.

As bolinhas foram saindo e, para desespero e sofrimento dele, o número 23 não aparecia. Foram oito rodadas seguidas e nada. Na nona, o locutor mostrou otimismo, pegou o microfone e anunciou o número ao público. Então, enfim, ouviu-se a tão esperada resposta:

- Bingo!

A espera havia acabado. A angústia era coisa do passado. A tensão não existia mais. O coração batia forte. Onofre jogou-se para trás na cadeira, colocou as mãos no rosto e chorou como criança. O bingo não foi para ele. Lá no fundo do salão vinha um intrépido velhinho, no alto dos 70 anos, sorrindo e comemorando a glória recém alcançada.

O que será melhor: perder por vários números ou por um só? Ser derrotado de lambuja ou bater na trave oito vezes até ser derrotado? Muitos reclamam da falta de sorte, porém, tê-la parcialmente pode ser um verdadeiro azar. Quem marcou apenas um número na cartela provavelmente esquecerá aquele dia. Onofre não. Foi mais que uma derrota. Um verdadeiro sonho perdido.

A história é verídica, creia. O exemplo deste jogador nato é só uma amostra de o quanto o quase pode ser pior que o nada. Estar ali, tão perto, e não conseguir pode virar até trauma. Ainda mais quando tudo parece conspirar a favor. A única vantagem do quase é viver a sensação de que é possível até o fim. Algo como diz o rei Roberto Carlos: "o importante é que emoções eu vivi".

O quase é cruel demais para quem perde, mas extremamente gratificante para o vencedor. Afinal, quem ganha também vive o quase. O problema é quando sempre é quase. Quase campeão, quase milionário, quase promovido ou quase um sucesso. O quase é um submundo psicológico intocável, inexplicável e, para muitos, imutável.

Será tudo uma questão de sorte? Não. Afinal, vencer nunca é pura sorte, por mais incrível que pareça. Nada é por acaso e tudo acontece no momento mais certo para nos fazer bem. Se não aconteceu, só resta tentar compreender. Talvez a tão esperada hora chegue logo ou, quem sabe, nunca apareça. O essencial é nunca deixar de acreditar.

Onofre saiu do bingo arrasado. Achou que jamais voltaria à jogatina. Engano dele. Não sabia que, dentro de si, havia encontrado a chave do dilema que tanto o angustiava. Haveria de descobrir, sabe-se lá quando, a sentença final: a esperança, sim, derrota o quase. Sempre, definitivamente.

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