Eu tinha 12 anos. Estava exatamente na metade da minha vida. Andar de bicicleta era uma brincadeira travestida de desafio que fascinava. Uma sensação de liberdade e domínio que contrastava com um risco inconsciente. No bairro, andar de bicicleta era tão comum para a criançada quanto caminhar, porém, em uma tarde de sábado o perigo apareceu.
Lá ia eu, com a possante Monark azul-marinho. Nos pneus, as finas garras pretas mostravam a robustez de uma freada potente e capaz de parar ao mínimo dobrar dos dedos no guidão. Subia pela rua, desviava das árvores, pulava a valeta e desafiava as britas. Até que uma descida pelo meio da pracinha da frente de casa me fez voltar à fragilidade escondida no ciclista inexperiente.
Dois amigos esperavam perto de uma árvore. Eu desci rápido o caminho de terra e pedras. Aproximei-me com confiança pensando em chegar triunfalmente e estacionar ao lado da dupla. Próximo deles, freei e dei uma leve virada no guidão para a direita, prenunciando a parada. Foi quando a roda de trás lançou-se à frente e me fez perder o controle. Em cima, o pneu pulava. Embaixo, o joelho raspava.
Parei de lado, com a bicicleta sobre a perna direita. Na canela e no joelho, marcas do acidente. Sinais de dor e aprendizado. O raspão foi grande, o sangue escorreu e a lembrança permanece viva até hoje. Pois olhando a TV nestes dias de tragédia, dei-me conta que as casas, estradas e árvores escorregaram no solo carioca tal qual eu naquela tarde de sábado.
É triste ver o desespero de quem está sem água potável, não tem comida e muito menos uma casa para morar. Sobrou apenas a roupa do corpo e, para muitos, até a vida lhes foi tirada. Enquanto o estômago ronca e a dignidade some, só resta buscar em listas fixadas nas paredes ou em fotos macabras o que sobrou dos parentes e amigos desaparecidos. Que lástima! Não restou nem um sorriso na região serrana do Rio de Janeiro.
Ante a tragédia, só resta reagir. Sair do percalço, salvar o que sobrou e recomeçar. Mas a lição aprendida a duras penas não pode ser perdida. A falta de planejamento na construção e o desafio à natureza em meio a morros e ao redor de rios, combinada à omissão do poder público na fiscalização dos locais, são uma enxurrada de perigo que poderia ser evitada.
Há 30 anos, desgraças parecidas já atormentavam os cariocas. De lá para cá, o que foi feito? Nada. Até agora, vieram milhares de doações. Faltam, ainda, as soluções. Em Nova York, por exemplo, moradores foram alertados por e-mail e até correio a deixarem suas casas antes de um perigoso temporal. Ainda precisamos aprender a prevenir ao invés de somente amenizar. Agir antes da dor é ser responsável com o próprio futuro.
Então, que as lágrimas que hoje lamentam as perdas nos faça esfregar os olhos para ver melhor a causa de tanto sofrimento. Assim como eu desci aquele barranco de terra e pedras com a Monark azul-marinho, o Rio de Janeiro viveu a mesma sensação de liberdade e domínio diante do risco inconsciente. Cabe, agora, também aprender a lição: saber a hora de parar e manter-se firme na terra para não escorrer mais sangue.
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