17 de jan. de 2011

O alento da tragédia nos pedais da bicicleta

Eu tinha 12 anos. Estava exatamente na metade da minha vida. Andar de bicicleta era uma brincadeira travestida de desafio que fascinava. Uma sensação de liberdade e domínio que contrastava com um risco inconsciente. No bairro, andar de bicicleta era tão comum para a criançada quanto caminhar, porém, em uma tarde de sábado o perigo apareceu.

Lá ia eu, com a possante Monark azul-marinho. Nos pneus, as finas garras pretas mostravam a robustez de uma freada potente e capaz de parar ao mínimo dobrar dos dedos no guidão. Subia pela rua, desviava das árvores, pulava a valeta e desafiava as britas. Até que uma descida pelo meio da pracinha da frente de casa me fez voltar à fragilidade escondida no ciclista inexperiente.

Dois amigos esperavam perto de uma árvore. Eu desci rápido o caminho de terra e pedras. Aproximei-me com confiança pensando em chegar triunfalmente e estacionar ao lado da dupla. Próximo deles, freei e dei uma leve virada no guidão para a direita, prenunciando a parada. Foi quando a roda de trás lançou-se à frente e me fez perder o controle. Em cima, o pneu pulava. Embaixo, o joelho raspava.

Parei de lado, com a bicicleta sobre a perna direita. Na canela e no joelho, marcas do acidente. Sinais de dor e aprendizado. O raspão foi grande, o sangue escorreu e a lembrança permanece viva até hoje. Pois olhando a TV nestes dias de tragédia, dei-me conta que as casas, estradas e árvores escorregaram no solo carioca tal qual eu naquela tarde de sábado.

É triste ver o desespero de quem está sem água potável, não tem comida e muito menos uma casa para morar. Sobrou apenas a roupa do corpo e, para muitos, até a vida lhes foi tirada. Enquanto o estômago ronca e a dignidade some, só resta buscar em listas fixadas nas paredes ou em fotos macabras o que sobrou dos parentes e amigos desaparecidos. Que lástima! Não restou nem um sorriso na região serrana do Rio de Janeiro.

Ante a tragédia, só resta reagir. Sair do percalço, salvar o que sobrou e recomeçar. Mas a lição aprendida a duras penas não pode ser perdida. A falta de planejamento na construção e o desafio à natureza em meio a morros e ao redor de rios, combinada à omissão do poder público na fiscalização dos locais, são uma enxurrada de perigo que poderia ser evitada.

Há 30 anos, desgraças parecidas já atormentavam os cariocas. De lá para cá, o que foi feito? Nada. Até agora, vieram milhares de doações. Faltam, ainda, as soluções. Em Nova York, por exemplo, moradores foram alertados por e-mail e até correio a deixarem suas casas antes de um perigoso temporal. Ainda precisamos aprender a prevenir ao invés de somente amenizar. Agir antes da dor é ser responsável com o próprio futuro.

Então, que as lágrimas que hoje lamentam as perdas nos faça esfregar os olhos para ver melhor a causa de tanto sofrimento. Assim como eu desci aquele barranco de terra e pedras com a Monark azul-marinho, o Rio de Janeiro viveu a mesma sensação de liberdade e domínio diante do risco inconsciente. Cabe, agora, também aprender a lição: saber a hora de parar e manter-se firme na terra para não escorrer mais sangue.

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