24 de jan. de 2011

O abismo entre um clique e um aperto de mão

Há menos de uma semana, eu retornava do trabalho quando me deparei com um homem deitado na calçada. Ele estava do outro lado da rua, em frente ao prédio onde moro. Usava calça de abrigo marrom, chinelo de dedos, camiseta branca e um casaco preto. Na cabeça, boné branco com a aba torta. Sobre o corpo, um cobertor fino. Eram 20h20min.

Ele estava imóvel e parecia dormir. Timidamente, virava de um lado para outro. A mão quase cobria o rosto já demarcado pela barba grossa. Perto dele, uma pequena mochila. Lá dentro, talvez, estivesse sua própria vida, a razão da existência e o motivo que o levava a estar ali, ao relento, enquanto a noite caía e o vento assoviava de leve. Já eram 02h30min.

As pessoas passavam timidamente pelo corpo estendido no chão. Procuravam respostas, mas só lhe brotavam dúvidas ao ver de tão perto tal cena. O desvio era desconfiado e o olhar, discreto. Ninguém estendia a mão. Por que tal homem ali estaria? O que cometera para ter abandonado a si mesmo à beira da parede de tijolos? Eram 11h30min.

Dois dias antes, fui ao cinema para ver o filme “Rede Social”, que conta a história de genialidade e imaturidade que resultou na criação do Facebook, um dos maiores fenômenos da comunicação mundial. Um drama repleto de altos e baixos que provou o quanto uma boa ideia pode transformar vidas para sempre. Eram 22h30min.

E dizer que o criador Mark Zuckerberg também usava uma calça surrada, chinelos, uma camiseta simples e um moletom com capuz. Quem daria a ele uma oportunidade não fosse sua própria vocação de enfrentar uma realidade que o excluía? Quem o estenderia a mão enquanto ele ainda estava jogado na calçada do anonimato? Sem amigos, o estranho idealizador hoje contabiliza 500 milhões de usuários na plataforma que criou.

Em um mundo cada vez mais virtual, a realidade é esquecida até mesmo do outro lado da rua. A internet aproxima o mundo e, ao mesmo tempo, distancia de uma realidade que salta aos olhos. Qual é a verdadeira rede social? Hoje, basta um clique para curtir um comentário e apenas um pingo de consciência para mudar uma vida. A diferença está nas barreiras que separam dois mundos em um só.

Quando voltei do trabalho no dia seguinte, o homem já não estava mais na calçada. De repente um amigo o adicionou à vida real. Ou talvez tenha levantado, juntado o cobertor fino e a mochila saliente e partido rumo ao desconhecido. Talvez ele até tenha uma boa idéia, mas falta a oportunidade e o principal: alguém para ouvi-lo.

Há um abismo entre um olhar, um clique e uma atitude, mas nada faz sentido se não tivermos alguém para compartilhar. Um amigo que seja. Certa vez, Zuckerberg disse que sua missão era dar às pessoas o poder de tornar o mundo mais conectado. Se na esfera virtual isso é tão real, por que na realidade é tão virtual? Diz o ditado que um homem se conhece pelo calçado que usa. Mas, definitivamente, jamais será pelos chinelos.

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