22 de março de 2010
O papelzinho estava lá, dobrado cuidadosamente em frente ao monitor LCD preto com faixa cinza. O local era a cabine de imprensa do parque da Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque. Computadores disponíveis para repórteres de todas as mídias e, em especial, para um apaixonado. Eu estava lá apenas para baixar uma foto e enviar por e-mail. Encontrei naquela sala, porém, em rabiscos no papel, um casal em apuros e um coração partido.
Não havia ninguém no local. Escolhi aleatoriamente o computador e, de repente, me deparei com aquele pedaço de papel dobrado. Sem dono, sem rastros. Calmamente, abri as dobras caprichosamente feitas. Na folha timbrada de uma companhia química, 15 linhas escritas em caneta azul e uma letra tremida e impaciente. Não era feia, nem um garrancho. A emoção falava em cada letra desenhada.
A carta não tinha endereço e não citava nomes. Iniciava com um pedido de desculpas pelas mensagens enviadas até aquele momento. Prosseguia: “estou vivendo uma fase muito difícil em minha vida. Se algum dia fiz alguma coisa que possa ter magoado você, me perdoe”.
Mais adiante, a confissão: “estou separado de minha mulher. Estamos sofrendo muito. Só que nos amamos e estamos tentando consertar o que fizemos de errado”. O texto prossegue com um novo apelo: “Me perdoe. Assim poderemos até, quem sabe, ser amigos e eu poderei provar que não sou essa pessoa que está pensando”. Por fim, um agradecimento e um lembrete: “Obrigado. Deus é fiel”.
A carta terminava assim, sem assinatura nem endereço. Um rascunho que talvez tenha sido passado a limpo ou, simplesmente, abandonado na mesa. Uma desistência que deixou vestígios, como o drama daquele homem. É difícil interpretar o contexto de tudo isso, mas é possível imaginar conclusões para uma realidade inusitada e, no mínimo, complicada.
Possivelmente, aquele homem teria enfrentado uma crise conjugal e buscado a felicidade nos braços de outra. O arrependimento bateu e, enfim, ele partiu para a reconciliação. Preocupado, lançou-se desesperadamente para evitar a mágoa a quem lhe fez feliz: a outra. Após um tórrido romance, ele a propunha apenas amizade. Seria tarde demais? Aliás, seria justo agir assim?
Tudo não passa de suposição. Não há subterfúgios que garantam que tudo isso tenha acontecido. Mas há uma certeza: se virou carta, envolvia amor. À moda antiga, só o amor pode motivar a escrita de uma carta para pedir desculpas. Nos demais casos, a desculpa costuma ser verbal. No amor, a falta de coragem ou, hipoteticamente, o romantismo de antigamente, transformam o “pergaminho” em alternativa principal.
O que realmente aconteceu ninguém saberá, a não ser aquele homem. A história não ficou completa. As suposições só nos permitem imaginar. Será que esta carta chegou a seu esperado destino? Eis um mistério eterno. Publílio Siro, escritor latino da Roma antiga, disse certa vez que “as feridas do amor só podem ser curadas por aquele que as fez”. A tentativa foi feita ou, ao menos, arquitetada.
Tudo aconteceu em meio a uma feira gigante com mais de 168 mil visitantes e R$ 512 milhões em negócios. Para aquele homem, porém, pouco importava. O coração valia mais que qualquer coisa. Na coletiva, o presidente Nei César Mânica disse que a 11ª edição do evento conseguiu despertar mudanças culturais nas pessoas. Faltou mencionar as amorosas. Afinal, se for seguir o histórico impressionante da feira, o amor anônimo da Expodireto Cotrijal tem tudo para prosperar e crescer sem limites.
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