05 de março de 2010
Tenho, por hábito, ler muito. Mais que isso, reler. Sempre é bom contemplar novamente algo que nos fez pensar, refletir e crescer. Escrevi o texto que republico a seguir em março de 2007. Três anos depois, parece que pouco ou nada mudou. Tire suas conclusões. Até onde vai?
Era meia-noite. De repente, ouço palmas. Abro a cortina e a janela curioso para ver o que me espera do lado de fora da casa. Um homem. Jovem e sozinho. O que poderia querer aquela hora da noite? Pediu por meus pais e eu lhe disse que estavam dormindo. Pareceu desistir de falar, mas eu perguntei o que desejava. Foi então que ele falou sobre sua filhinha, que sofria por causa de adenóide e estava com o rosto roxo. Um caso urgente. Será? Disse-me que havia levado a menina ao hospital e, apesar de ela ter sido liberada pelos médicos, precisava de dez reais para comprar remédio. Não tinha dinheiro e garantiu-me que iria receber apenas na terça-feira. Também falou que era novo na cidade e que, ao chegar à casa de um tio, o único conhecido que tinha, este já estava dormindo e não pode lhe atender.
E agora? Confiar no sucesso teórico do SUS e no estoque de sua farmácia e acreditar que, se o caso fosse grave, a menina seria internada e teria todo o tratamento necessário? Ou, talvez, ficar sensível ao apelo de um pai, lembrar do drama da saúde pública brasileira e dar o dinheiro? Eu nunca tinha visto aquele homem na minha vida. Ele não estava desesperado, não tinha receita médica com o nome do remédio que sua filha precisava nem morava perto da minha casa. Por que viria até a minha distante residência, à meia-noite, pedir para que eu o ajudasse?
Logo, pensei: até onde vai o amor de um pai ou mãe pelo seu filho? Dia desses, um avô salvou seu neto da morte ao lutar no braço com uma sucuri. Há mais tempo, uma mãe que não sabia nadar mergulhou em um pequeno lago formado pela chuva que inundou São Paulo e resgatou seu filho. Provas de amor que talvez não se comparem a essa realidade, mas que deixaram meu coração com muitas dúvidas sobre o que me falava aquele homem.
Hoje, diferentemente dos chamados “velhos tempos”, o ceticismo virou uma obrigação. São tantos sequestros, assaltos, atos suspeitos ou pura malandragem em busca de sensibilidade e humanismo que abrir os olhos é pouco: é preciso abrir a cabeça também. Uma contradição maluca em um país cada vez mais sem caráter. É roubalheira na política, demagogia barata e uma luz no fim do poço, ao invés de túnel.
O refrão de uma música da banda Jota Quest lança a pergunta no ar: até onde vai o coração da gente? Ser bom ou ser bobo, eis a questão. Amar e acreditar ou sofrer e lamentar? Muita coisa mudou. Tanto que eu falava com aquele homem desconhecido atrás de um muro com grades e uma janela cheia de ferros ao redor. Desconfiava, me sensibilizava, mas temia. Sua postura e seu jeito tão despreocupado na hora de falar do drama que vivia fizeram meu ceticismo falar mais alto.
O homem saiu caminhando devagar, olhando para os lados e aparentemente frustrado. A criança, se é que existia, parecia não ser importante para ele naquele momento. Ao ouvir minha negativa, ele me disse: “tudo bem, vou ver se consigo arrumar alguma coisa por aí”. Do meu lado da grade, um pequeno sentimento de culpa. Do outro lado, um fracasso com jeito de “está bem, eu nem precisava mesmo”. Fechei a janela e a cortina.
Filósofos dizem que a intuição é a voz do coração. E até onde vai o coração da gente? Não somos mais nós mesmos, mas sim quem podemos ser. É tanta injustiça, impunidade e desrespeito vindos de todos os lugares que acreditar prontamente virou atestado de trouxa. Confiar e ser de confiança no Brasil virou troféu para ser exibido na parede da sala para todo mundo ver e, claro, não crer. A crise é tanta que desconfiamos até da nossa própria sombra. Será que, a exemplo daquele homem, devemos bater palmas?
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