24 de março de 2010
A quinta-feira era mais um dia normal. Daqueles em que tudo se encaminha e nada de surpreendente acontece. O relógio marcava 18h55min. Estacionei o carro, abri a porta e olhei para ver se não havia deixado nada importante antes de sair, fechar a porta, acionar o alarme e entrar na universidade. Caminhei em passos calmos e tranquilos até que, não tão distante, uma moto apareceu no horizonte.
Estacionou perto da parada de ônibus. Era um casal. Ela desceu. Ambos tiraram o capacete. Conversa vai, conversa vem, eles se despediram. O homem botou o capacete, ligou a moto e preparou-se para sair. A jovem mulher ajeitou o caderno na mão esquerda, pulou o meio-fio e caminhou rumo ao corredor. Nesta hora, eu atravessei a rua com os olhos quase fechados diante da luz da moto em minha direção.
Entrei no mesmo corredor. De repente, ouvi o barulho da motocicleta saindo e se dissipando no ar em poucos segundos. Cinco metros à frente de mim, a mulher que recém desembarcou caminhava normalmente. De repente, ela parou. Ficou imóvel. Como em um clássico e antigo filme de romance, torceu o pescoço para trás em um movimento brusco. Nos olhos, o desespero da perda e a angústia pelo impossível.
Balançou a cabeça, olhou para o horizonte e engoliu a seco um grito de chamado. Caminhou por três ou quatro passos até iniciar uma corrida leve que se transformou em um pique de fuga. Continuei caminhando. Ela correu, passou por mim e seguiu rumo à parada de ônibus, de onde recém havia descido. Olhei para trás e a visualizei novamente imóvel. Olhava para o horizonte, em busca de algo. Instantes depois, ela levou a mão direita à cabeça baixa em tom de lamentação.
Não precisava dizer mais nada. Permaneci caminhando e logo deduzi: ela havia esquecido algo. O que poderia ser? Um documento importante, talvez. Quem sabe não era um pedido especial para o namorado. Poderia ser, ainda, um simples recado mais ou menos assim: “vai devagar, amor. A estrada é perigosa”. Ela havia tido um lapso de memória e, agora, era tarde demais. A moto havia partido, assim como seu coração.
Quantas vezes esquecemos as coisas? Tem gente que esquece propositalmente, mas aí é dissimulação total. Falo daquela perda inimaginável de memória seguida de uma recuperação súbita exatamente no momento em que não é mais possível reverter o erro cometido segundos antes. Alguns esquecem pela correria do dia a dia. Outros, pelo excesso de calmaria. Tem aqueles que ainda deixam de lembrar por falta de compromisso ou, simplesmente, porque não lhes era importante.
A verdade é que todo mundo esquece. Seja agora ou depois. Só fica guardado aquilo que realmente nos marca. Momentos que passamos por algo importante. Seja quando conquistamos, aprendemos, lamentamos, sofremos, perdoemos ou recebamos o perdão. Impreterivelmente, somente o que mexe mesmo com nossos brios, sentimentos, opiniões e modo de ser e agir é que não são esquecidos.
Infelizmente, este estigma está ficando para trás. Mais que esquecer coisas, fatos e momentos, as pessoas estão esquecendo o que realmente são. Um esquecimento quase subliminar, mas altamente perigoso. Hoje, esquece-se de dizer um “eu te amo” aos pais, de dar um “bom dia” ao colega de trabalho e até mesmo do manjado “saúde” quando alguém espirra. O ser humano está esquecendo o próximo.
A tal lei do “tô nem aí, pois isso não me afeta diretamente” é maligna. O egoísmo velado é regado até que a balança mude e estejamos nós no ponto mais fraco clamando por atenção. Só assim, no sofrimento, é que voltamos a nos lembrar. Por que é preciso a dor para ser feliz? Essa antítese poderia ser mudada naturalmente. Infelizmente, está fadada ao fracasso por simples esquecimento.
Não é à toa que o mundo esteja pedindo socorro das mais diversas formas. Que a natureza dê o troco, que a morte tenha sido banalizada e que o medo do desgaste esteja vencendo a coragem do crescimento. Precisamos aprender a não esquecer. Lembrar, urgentemente, mas sem rancor. É necessário dar e receber mais atenção. Em tudo e para todos. Só assim poderemos, enfim, esquecer os feitos desse egoísmo covarde que nos corrompe e destrói.
Caminhei até a sala pensando no que realmente aquela mulher havia esquecido. Seria simples? Talvez fosse algo que poderia esperar até o dia seguinte. Após presenciar aquele momento sublime, resolvi deixar de lado a tentativa improvável da adivinhação. Naquele momento, o esquecimento não era o mais importante. Afinal, ela havia lembrado e corrido atrás contra o tempo para mudar. Definitivamente, não há nada mais forte e necessário que uma lembrança, mesmo que pareça ser tarde demais.
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