19 de abril de 2010
A quinta-feira havia terminado. O fim de semana estava próximo. Após o banho, entrei no quarto disposto a ter uma boa noite de sono para mais um dia de trabalho. O relógio marcava 00h40min de sexta-feira. Ajeitei-me, liguei a luz de cabeceira e comecei a ler um livro. Menos de dez minutos depois, ouvi um estampido. Seco, seguido de silêncio e rodeado de dúvidas e medo.
Ouvi um estouro, algo como uma bomba ou um tiro. Na hora, não imaginava o que podia ter acontecido. A casa estava em silêncio. Larguei o livro e agucei os ouvidos. Não havia barulho. Não houve gritos nem lamentações. Nada, absolutamente. O silêncio era total e não dava margens a imaginar o que tivesse acontecido. Naquela hora, as possibilidades eram muitas, mas o silêncio desafiava.
Passei cerca de dez minutos esperando. Nada. O sono voltou, desliguei a luz e dormi. No outro dia, chegando à rádio, a surpresa. O que ouvi seis horas e quinze minutos antes, na cama, lendo, era o sexto homicídio do ano em Carazinho. Éberton Cassiamani, de 24 anos, levou um tiro apenas. Ele foi atingido nas costas, na Rua Lourival Vargas, no bairro Vila Rica. A bala de revólver atravessou na região do peito o corpo do jovem, que não resistiu aos ferimentos ao chegar até o HCC na madrugada de sexta-feira.
A segurança pública é um dos três pilares essenciais da sobrevivência humana. Juntamente com saúde e educação, sustentam o desenvolvimento das populações e as direcionam para a evolução ou estagnação. Nos dias de hoje, porém, estar seguro está cada vez mais complicado. A morte passa perto, ao lado, deixando no ar aquela sensação de que o pior pode acontecer a qualquer instante.
Os órgãos de segurança pública fazem sua parte dentro das condições que lhe são oferecidas. Aliás, muito mais do que podem. Casos como o homicídio da Vila Rica são fatos que só um método pode evitar: prevenção. Não há como policiais imaginarem como, quando e onde acontecerá o crime. Evitá-lo, portanto, é lenda. Preveni-lo, porém, é uma ação que demanda mais que reforço de efetivo ou armamento. É preciso trabalhar diretamente onde tudo acontece: na consciência.
Diz o ditado que prevenir é melhor que remediar. O problema é que a prevenção na segurança pública é um trabalho lento. De formiguinha, como dizem muitos. Transformar a consciência de potenciais criminosos envoltos em uma rede de drogas, miserabilidade e falta de perspectivas envolve uma série de medidas. É um trabalho plural que jamais surtirá efeitos com ações isoladas.
A dúvida que paira no ar é se a sociedade realmente quer essa mudança. Barbaridades acontecem diariamente e qual é a resposta? Conformismo e esperança. Só isso não basta. Uma cidade livre de crimes é impossível. É utópico. Por outro lado, quando o crime bate na porta e ganha proporções cada vez mais preocupantes, é preciso uma reação imediata sob pena de se perder para sempre o controle.
Desde janeiro, Carazinho teve seis homicídios. Nos últimos dez dias, foram dois. Em um dos casos, um jovem foi baleado fatalmente enquanto andava de moto. Isso sem contar os diversos registros que entopem a Delegacia de Polícia e a Brigada Militar. Até a Prefeitura foi invadida recentemente. É preciso, urgentemente, sacudir a sociedade para que acorde e perceba que algo está errado. Hoje, infelizmente, as pessoas de bem estão se omitindo pelo medo de serem alvos. Enquanto isso, a criminalidade cresce e a polícia, por mais esforço que faça, não dá conta de tanta demanda.
Talvez seminários e encontros possam ser alternativas. Por outro lado, o esforço exemplar de quem promove de nada adiantará se quem estiver sentado assistindo estiver focado mais em parecer preocupado com o tema do que efetivamente estar. Afinal, a aparência de ação é pior que não participar, pois além de não se preocupar, a pessoa mente para si e para os outros. Hoje, diante deste quadro, só resta uma opção: investir nas crianças.
Programas educacionais e de orientação nas escolas são as ferramentas que podem mudar essa realidade no futuro. Dar oportunidades e atenção a estas crianças é dever de uma sociedade que, aos poucos, vira refém de si mesma. Até quando ousaremos esperar? Quem sabe a criação de um Programa Municipal de Prevenção da Violência, com ações conjuntas, congregação de projetos em andamento e envolvimento direto das escolas e universidades, possa abrir as portas para esta mudança.
Enquanto isso, a sensação de medo permanece. Naquela madrugada, ouvi mais que o sinal da morte de alguém. Foi um tiro na consciência que cada um deveria levar. Os minutos após aquele estampido pareciam intermináveis. Nenhum barulho. Não havia respostas, muito menos reações. Foi no silêncio daquele ato que me pus a pensar sobre o que poderá nos esperar na próxima esquina ou logo ali na rua perto de casa.
Até voltou em minha mente um episódio ocorrido em 2001. Eu estava voltando a pé para casa quando, a duas quadras do destino, fui surpreendido por um jovem alto e forte que roubou meus tênis. Ele me levou até uma pracinha do bairro para que ninguém presenciasse o assalto. Foi duro passar em frente a minha casa sem poder reagir e com medo de que coisas piores acontecessem. É este temor impotente que devemos combater.
Hoje, somos vítimas da própria omissão. No futuro, talvez sejamos do sistema que deixamos tomar conta. Vencer o medo é difícil, mas viver com medo é muito pior. Hamlet, o personagem épico de Shakespeare, sofreu e passou a vida tentando vingar a morte do pai. Como ele, hoje nós estamos vivendo entre a loucura e a razão. Que, juntos, possamos evitar o caminho da vingança. É na atitude, no respeito e no enfrentamento do medo que acharemos a saída. O resto é silêncio.
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