12 de jan. de 2011

Vida online: remédio para a timidez, doença para a alma

17 de maio de 2010

Refletir é uma das virtudes humanas. Por opção ou pura ignorância, é privilégio de poucos. Antigamente, cabia aos sábios e filósofos a tarefa de pensar para transformar a sociedade. Ultimamente, porém, a reflexão expandiu-se de tal maneira e ganhou uma ferramenta poderosa e abrangente: a internet. Virou moda refletir, sonhar, pensar, contar intimidades e dar lições de vida, principalmente no MSN e no Twitter.

Há muitos sites com mensagens e textos reflexivos escritos por especialistas em determinado tema. Mas o mais instigante é ver as manifestações de quem não é entendedor certificado do assunto. Pessoas que vencem, perdem, sorriem ou sofrem e já expressam em frases, versos ou simples palavras mensagens que soam como alerta, conselho, desespero e autoconfiança. A filosofia virtual reinventa a vida de todos.

Estou há dias observando meus contatos no MSN para escrever esta coluna. É surpreendente o que se percebe quando se faz uma observação cuidadosa. O nome dos amigos é detalhe perto dos dizeres que compõem o tal nick virtual. Tem conselho para dor de amor, dicas para uma vida feliz, alerta para os perigos dos “falsos amigos”, descontentamento com o trabalho, propaganda, corneta futebolística, desejos calientes e muito mais.

A identidade virtual permite tal liberdade. A timidez é virada do avesso em uma exposição voluntária da vida em busca de atenção. Uma atitude que mistura uma carência com um desejo de expressar-se loucamente e ser correspondido. No dia a dia, tudo é diferente. Você chegaria para alguém e diria “sou o fulano, estou com dor, faltam 15 dias para o grande dia”? Ninguém revela intimidades, sentimentos ou emoções desse jeito a não ser pela internet.

No Twitter, a realidade é a mesma. Em 140 caracteres, o indivíduo conta que foi pescar no fim de semana, que vai jantar com os amigos no sábado e que marcou três gols na pelada de quinta à noite. Diz até que está frio. E daí? Quando diria isso, assim, só por dizer a sabe lá quem? Talvez nem no elevador. A liberdade de autorizar ou não o contato de uma pessoa via MSN ou Twitter restringe, mas não evita o sumiço da timidez. A internet é o maior espaço público do mundo e, sim, é uma carta de alforria que traz uma liberdade “afrodisíaca” pelo ambiente virtual.

Quantas amizades surgiram pelo contato online? Até negócios, namoros e casamentos nascem pela troca de palavras digitadas. Vizinhos se comunicam pela internet. Colegas de trabalho se falam, na mesma sala, sem mover a boca. Assim como abre portas para os tímidos de plantão, a internet é vilã ao reduzir o contato humano. Um beijo ou abraço virtual não se compara a um real. Encurtam-se distâncias, mas perdem-se sentimentos.

Um “eu te amo” online não se compara a um dito no olho no olho. O abraço virtual de um pai e de uma mãe jamais trará a mesma sensação. O ato de dar parabéns não tem o mesmo peso que o dito pessoalmente. A flor digital não substitui a colhida no jardim. A certeza de um olhar ou a doçura de um sorriso jamais será substituída via contato eletrônico. A presença virtual nunca será tão significativa quanto a real.

A tecnologia tende a tornar tudo mais fácil, mas jamais tirará o sentido literal de estar ao lado de alguém. Há perdas e ganhos em tudo e a internet tem inúmeras vantagens. Em termos de relação humana, porém, é apenas a chave que abre a porta. Um caminho, nunca o destino. Permite muito, quase tudo, mas restringe o principal. Afinal, não há sentido em se comunicar, comprar, vender, aconselhar, paquerar, lamentar, pedir atenção e até revelar segredos se não for com o pensamento em alguém. Sempre é bom estar online, mas melhor é viver o mundo real e seus desafios. Essa, sim, é a conexão mais importante.

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