16 de jan. de 2011

A mágica do cinema

O sábado estava frio, mas não interessava. O cinema me chamava e eu resolvi atender ao pedido. Chegando lá, uma surpresa: faltavam dez minutos para começar a sessão e uma cena me fez pensar o quanto o cinema fascina. Não era na telona, mas logo ali, a duas poltronas a minha direita.

Eles a recém haviam chegado. Uma criança de no máximo nove anos de idade. Camiseta branca, jaqueta de moleton com listras, calça de abrigo e tênis branco. Nas costas, uma mochila laranja, com uma alça em cada ombro. Ao seu lado, uma senhora com mais de 70 anos. Caminhava devagar e, no fundo dos óculos, revelava anos de uma vida difícil.

Ao sentarem-se, o garoto resolveu abrir a mochila. De lá, tirou um cobertor fino nas cores branca e marrom. Entregou à avó, que repousou o objeto no colo. De dentro da mochila também foi retirado um aparelho de celular. Prontamente, o menino configurou a opção para fotografia e virou-se para a tela.

As luzes internas e amareladas ainda estavam acesas. Na tela, apenas o branco da parede e as sombras do tom meia-luz. A música ambiente tocava como uma sinfonia dos velhos tempos. O jovem levantou e, rapidamente, começou a fotografar a telona e mostrar para a avó. As pernas balançavam na cadeira e o sorriso tomava conta dos lábios.

Foram três ou quatro fotos, mas para mim bastou. Carazinho é um dos raros locais que possui um cinema de rua. Uma realidade que existe graças à perseverança de um homem que carrega o amor pelos filmes no sangue e por um trio de abnegados que aprenderam a viver entre o brilho do sucesso e o escurinho da sala de projeções.

Os anos se passaram. O cinema que encantou uma geração e cresceu na cidade, hoje sobrevive quase inexplicavelmente sem lucro. A cultura, o charme, o diferente, a surpresa do filme inédito, tudo se perdeu em Carazinho. Restou apenas um sonho movido à paixão. O tempo passou, porém, esqueceu de trazer consigo um passado que encantou tanta gente.

A cena daquele garotinho fascinado com a oportunidade de estar no cinema e, mais que isso, ansioso pelo que talvez fosse um dos grandes momentos de sua vida até então, merece uma reflexão. Na sua mente, uma expectativa. Ao seu lado, alguém que viveu o que hoje não passa de um sonho. Um encontro de gerações através do cinema.

Nada está perdido. Pelo contrário, o cinema ainda encanta e jamais será substituído pelos DVD’s, apesar do conforto de casa e da possibilidade de pausar o filme a qualquer momento. No cinema, assim como na vida e na projeção do filme, o tempo não para jamais. Vive-se o momento e, num momento, vive-se uma vida.

Naquela noite, estava em cartaz "Harry Potter: o enigma do príncipe". A história de um bruxinho, seus feitiços, magias e aventuras. Mistérios de uma ficção que bem podia ser realidade. O menino guardou o celular e esticou o cobertor. Olhou para a avó e sorriu. A luz se apagou e, antes de o filme começar eu já sabia: a mágica já havia acontecido.

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