18 de fevereiro de 2010
A frase foi dita ao vivo, na televisão britânica, pelo jornalista Ray Gosling. Aos 70 anos e homossexual assumido, ele revelou ter sufocado seu parceiro em estado terminal com um travesseiro para abreviar o sofrimento. A confissão reavivou o debate na Grã-Bretanha sobre a eutanásia, procedimento considerado ilegal no país. Quem lê, geralmente tem opinião formada sobre tudo ou quase tudo. Uma coisa, porém, é certa: mesmo discordando, é praticamente impossível não se comover com a dor.
O parceiro de Gosling tinha AIDS, estava em estado terminal e sofria com dores insuportáveis. Ambos tinham um pacto para que um ajudasse o outro a morrer caso as dores decorrentes da doença aumentassem de forma extrema. O jornalista disse que era contra a eutanásia, mas após saber dos médicos que nada mais poderia ser feito, resolveu agir. “Quando se ama alguém, é duro ver a pessoa sofrer”, desabafou.
A eutanásia sempre gerou polêmica. Para muitos, tirar a vida de uma pessoa, mesmo para aliviar a dor, é semelhante a um homicídio. Afinal, a morte seria antecipada através da ação de alguém. Outros, porém, acreditam que não há problemas em abreviar o sofrimento de quem já está condenado a morrer. Pensam, inclusive, que amenizar a sensação do paciente é uma prova de amor.
Temas como este, assim como pena de morte e aborto, sempre vão dividir opiniões. São assuntos que colocam à prova o respeito à vida e, principalmente, ao direito de decidir pela vida alheia. Uma liberdade que acaba invadindo a própria liberdade de cada um fazer o seu destino. Muitas vezes, o paciente pede para ter a vida abreviada, porém, a lei veta que alguém o ajude a morrer. O dilema é imenso, tanto para quem sofre com a doença como para quem vê tudo e nada pode fazer.
Diz um ditado que não se pode julgar nenhum ato se não nos colocarmos no lugar da pessoa que o praticou. O drama do jornalista que tirou a vida de quem amava, mesmo sendo historicamente contra a eutanásia, mostra o quanto o sentimento humano pode, em alguns casos, sobressair-se à razão. São os chamados mistérios inexplicáveis que cercam a vida . Uma incompreensão amplamente pesquisada e discutida, mas jamais resolvida. Afinal, ser imprevisível é uma das características que jamais poderá ser retirada do comportamento humano.
A polícia do condado de Nottinghamshire anunciou que investigará as declarações. “Não me arrependo. Fiz o correto”, declarou o britânico em frente às câmeras. Ontem, Gosling foi preso. Pela legislação da Grã-Bretanha, ajudar alguém a morrer pode render uma pena de até 14 anos de cadeia, mas os tribunais do país têm evitado condenar os acusados nesses casos. O motivo seria o fato de o autor já ter sofrido com a morte da pessoa que ama. Nessas horas, a própria Justiça faz jus ao símbolo da balança. É possível julgar a dor de alguém?
Independentemente da polêmica que a situação gera, a verdade é que a vida apresenta situações boas e ruins para todos. Momentos que são difíceis de aceitar, mas que por algum sentido é necessário que por aquilo passemos e, claro, superemos. Ninguém gosta de sofrer, mas a maior certeza da vida é, sim, a morte. Portanto, só nos resta seguir a receita quase utópica da escritora Kathleen Norris: “a vida é mais simples do que a gente pensa; basta aceitar o impossível, dispensar o indispensável e suportar o intolerável”.
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