3 de mai. de 2010

Boncaldo e o cheiro da mudança

31 de agosto de 2009

Boncaldo era durão na defesa. Marcador implacável que adorava um duelo de titãs. Tratava a área como sua casa. “Só entra nela quem eu deixo”, afirmava com a braçadeira branca apertada no braço esquerdo. Zagueiro de fino trato, mas que não hesitava em dar chutão. Um gentleman com pitadas de crueldade.

Soberano em campo, Boncaldo tinha uma mania: jogar perfumado. A vaidade era o contraste entre delicadeza e rigidez. O ritual era sempre o mesmo. Banho antes do jogo, desodorante suave e perfume de marca. Depois, o uniforme. A moda causava estranheza em uns, certeza em outros.

Quando perguntado sobre o rito, o zagueiro revelava um preconceito: odiava jogador fedido. Exigia do atacante adversário no mínimo um uniforme bem lavado. Não admitia, de forma alguma, marcar de perto um jogador que estivesse com cheiro que o desagradasse.

Foi quando ouviu falar de um centroavante uruguaio chamado González. O melhor atacante, o pior cheiro. O duelo seria domingo na final do campeonato. O que o gringo não sabia era que Boncaldo estava disposto a abrir mão do preconceito em nome do título. Faria tudo pela taça. Eis que o dia chegou.

Estádio lotado. Bandeiras tremulando. Torcida ansiosa. Coração batendo a mil. O jogo estava zero a zero. O relógio marcava 44 minutos do segundo tempo. O uruguaio projetou-se no contra-ataque e só havia um marcador na frente: Boncaldo. Ele avançou. O zagueiro parou.

Muitas vezes, a hora da verdade chega. Não há como mudar, adiar ou pedir um tempinho a mais. Nessas horas, é preciso estar preparado e, principalmente, ter coragem para enfrentar o que vier pela frente. Pode ser desagradável, mas certamente é necessário.

Onde há fumaça, há fogo. Foi isso que passou na cabeça de Boncaldo quando viu González em sua direção. Algo iria acontecer. O zagueiro segurou a respiração e partiu. Na hora do primeiro confronto, o ar escapou e, surpresa: o uruguaio usava perfume francês.

Não adiantava hesitar. Era a prova que as mudanças acontecem, cedo ou tarde. Às vezes para melhor, outras para pior, mas sempre surpreendentes. Foi um drible, dois dribles e, na hora do chute, Boncaldo desistiu. Assistiu deitado ao xeque-mate que mudou tudo. Era tarde. González tinha cheiro de gol.

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