Diz o ditado que um olhar vale mais que mil palavras. Jamais imaginei encontrar o sentido mais amplo desta frase mirando uma criança com fome do outro lado do vidro. O relógio marcava 19h10min de domingo. Ali, sentado, pude ver que a esperança de uns é melhor que a espera de uma criança pelo incerto destino que lhe guia.
O movimento na padaria era intenso. Entre idas e vindas, sorrisos e descontração. Mas ali fora uma criança de aproximadamente oito anos de idade, com roupas rasgadas e um saco de pães velhos transparente, procurava mais que saciar suas necessidades físicas. Também lhe faltava atenção.
Viver como um ser invisível não deve ser nada bom. Ainda mais quando se sabe que todos o vêem, mas ninguém quer vê-lo. Um retrato triste de uma sociedade que não aprendeu como o desprezo dói tanto quanto a fome. Após trinta minutos ali, apesar do movimento, nenhum olhar.
Foi quando eu, enfim, o encontrei na escuridão da noite. Do outro lado do vidro, ao olhar pela janela me deparei com aqueles olhos. Nunca um olhar falou tanto. Uma vida correu pela cabeça e, no silêncio, a criança gritava por socorro. Na hora, me perguntei: por que quem realmente precisava perceber aquele olhar simplesmente não o vê?
O Brasil perdeu o rumo faz tempo. O foco não é quem precisa, mas quem quer mais. O amor ao próximo confunde-se com o desejo pelo próximo meio de se dar bem. Por incrível que pareça, Carazinho não está longe disso. Uma criança, sem pai nem mãe, sozinha, no escuro, e ninguém faz nada? Isso não pode ser normal.
Nessas horas, cabe a todos se perguntar: investir milhões em muitas coisas incertas vale mais que salvar aqueles que farão o nosso próprio futuro? Infelizmente, só resta citar Shakespeare: “os miseráveis não têm outro remédio a não ser a esperança”. Pior que isso, porém, são os miseráveis de espírito.
Acostumar-se com o abandono e o desprezo é entregar-se à decadência. Incentivar programas sociais da boca para fora é simples quando o problema não nos bate a porta. Ou pior: quando nós mesmos colocamos um vidro quase inquebrável entre a realidade e a aparência. Não seria melhor um espelho?
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