3 de mai. de 2010

O sonho do xerife Tenório

27 de agosto de 2009

Tenório sempre quis ser xerife. Estrela no peito estufado, chapéu inclinado escondendo o olhar frágil com a sombra da força policial. Cinto cinza com a presilha prateada e, no lado direito, o revólver carregado pronto para disparar a qualquer momento de perigo. Camisa xadrez em tons de preto, branco e cinza e botas de bico fino, com esporas reluzentes.

O problema é que Tenório não passava de um garçom mal pago do saloon. Entre tragos e cigarros, copos de leite para os mocinhos e aguardente para os mal encarados. Avental branco, borrado pela poeira, e um pano de prato cuidadosamente dobrado no ombro. O aspirante a xerife era subordinado.

Eis que, certo dia, o xerife se aposentou. O grande momento havia chegado. Quem seria o escolhido? Os candidatos se perfilaram e, sem eira nem beira, o mandatário sentenciou:

- Vamos fazer uma escolha de consenso!

Todo mundo se entreolhou. Consenso? Na hora da decisão, porém, os mais conhecidos preferiram se afastar. Então, sobraram os novatos. O medo fez um desistir. O nervosismo eliminou mais um. Minutos depois, restou Tenório. Pretendente único, foi conduzido ao posto que sempre sonhou.

Os dias se passaram e o xerife assumiu. Tudo corria bem até que um bandido perigoso chegou à vila, ameaçou os moradores e prometeu tomar conta do povoado. A população tremeu. Então, todos chegaram a outro consenso: Tenório era quem deveria defender sozinho a honra do vilarejo.

O duelo foi rápido. Em questão de segundos, os passos foram contados, os peões se viraram e as balas saíram voando do cano das armas. Duas sumiram na poeira. Uma rasgou a camisa engomada xadrez em tons de preto, branco e cinza. Agora, Tenório tinha outra cor em forma de mancha: vermelha.

Muitas vezes, chegar à unanimidade é difícil. O mais grave, porém, é quando parece haver arrependimento. O consenso é traidor quando lota o palanque nas horas boas e esvazia nas ruins, pois a qualquer momento, o sonho pode virar pesadelo.

Mesmo furando a camisa xadrez, a bala passou e desapareceu com o vento. Tenório não respirava. O vermelho não era sangue, mas vergonha. As mãos tremiam, o corpo suava e a arma caiu no chão. Não havia mais nada a fazer. Um novo consenso tomou conta do povoado: a estrela do xerife não tinha mais valor.

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