3 de mai. de 2010

O fim da lenda do Farrapo

26 de agosto de 2009

Farrapo era guerreiro e não era só no nome. De promessa franzina do futebol interiorano, transformou-se em um tanque dentro da área. Uma máquina de fazer gols sempre no ataque. Contra tudo e contra todos, fez história sabendo dois fundamentos básicos: chutar e cabecear.

De feição indígena e com cabelos longos e lisos, ostentava na testa uma fina fita vermelha. Com as madeixas umedecidas, o matador jamais parecia suar. Ele era daqueles que não fechava os olhos na hora de cabecear. Chutava com a perna que se apresentava e direcionava o ângulo da bola dedo por dedo.

Saiu da várzea e ganhou os gramados da fama. Foi respeitado em todo o país como um Deus. Venceu os obstáculos, até parar em um: o tempo. E não havia intervalo para descanso. Os anos na área lhe tornaram mais experiente, mas sem a mesma vitalidade.

Foi quando Farrapo veio jogar em um dos clubes que o projetou. Por instantes, achou que seria fácil. Afinal, era o eterno goleador. O povo comprou ingresso, cachorro-quente e bandeiras. Valia tudo para torcer pelo maior atacante da história da cidade.

O jogo começou tenso. A bola não chegava. O relógio marcava 15 minutos. Foi quando o lateral projetou-se pela linha de fundo, olhou para a área e viu a certeza do gol. O índio estava lá. O cruzamento foi certinho, como um típico ponta-direita dos anos 50. Quando tudo parecia desenhado, o juiz apitou.

Deu impedimento. Farrapo não aceitou. Enfrentou a tudo e a todos. Queria fazer o gol que o povo tanto esperava. O juiz perdeu a paciência e puxou do bolso o cartão vermelho. Estendeu-o lá em cima e ordenou que o centroavante fosse para o chuveiro. A torcida não acreditou. O matador havia sido morto.

Indignado, não quis sair. Como poderia ele, o grande ídolo, ser expurgado na terra onde foi rei? O sangue tupi de Farrapo ferveu. Ele não queria, mas não havia outra saída. Era fechar a boca e sumir do mapa. Cabisbaixo, desceu as escadas rumo à desgraça. No fundo do poço, mas porque ele assim o fez. Seu prestígio era do passado. Seu presente era apenas decepção.

O futebol nunca mais foi o mesmo na pacata cidadezinha. O juiz virou lenda: pela coragem e pela justiça. O manda-chuva, apesar das glórias, não tinha força maior que a autoridade máxima das quatro linhas. Ali, era só mais um homem sujeito às regras da verdade.

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